Por Luis Fernando Cardoso e Cardoso (UFPA)
Uma Trajetória Intelectual entre Fronteiras e Transformações.
Wilson José Barp constitui uma figura relevante da sociologia brasileira, especialmente nos debates sobre a sociedade amazônica e seus problemas sociais contemporâneos. Suas obras e trajetória intelectual sempre buscaram articular rigor acadêmico, humanismo e compromisso social. Nascido em 22 de março de 1958, em Marcelino Ramos, no Rio Grande do Sul, sua formação humana e científica foi forjada na intersecção entre as tradições rurais do Vale do Rio Uruguai e as demandas transformadoras da sociedade brasileira.
Filho de Antônio Barp, agricultor e líder comunitário, e de Zebelina Lorini Barp, artesã, Wilson cresceu em uma família de imigrantes italianos cuja história familiar espelhava as grandes migrações e conflitos fundiários que marcariam seus objetos de investigação científica. As narrativas orais transmitidas pelo avô paterno, que preservava tanto a língua italiana quanto as memórias das lutas pela permanência no campo, constituíram o substrato inicial de uma sensibilidade sociológica que articularia, ao longo de toda sua carreira, experiência vivida e reflexão crítica.
Seus estudos secundários, realizados no Instituto Menino Deus, em Passo Fundo (1975–1977), constituíram ambiente formativo decisivo. Foi nesse período que o jovem Barp descobriu sua paixão pelo esporte e pela música regional, mas, sobretudo, desenvolveu uma sensibilidade para as dinâmicas sociais cotidianas, observando como indivíduos e grupos construíam significados e estabeleciam trocas simbólicas em seus contextos imediatos. Essa atenção precoce às interações sociais concretas prenunciava o que posteriormente se consolidaria como disposição sociológica fundamental em sua trajetória intelectual.
Paralelamente às atividades escolares, sua participação em mutirões de alfabetização de adultos pelo método freireano consolidou uma convicção epistemológica que perpassaria toda a sua produção posterior: a de que a pesquisa social deve constituir-se como instrumento de transformação e emancipação humanas. Essa experiência formativa estabeleceu as bases de uma práxis intelectual que recusaria, sistematicamente, a separação entre o conhecimento acadêmico e as demandas comunitárias.
O ingresso no curso de Filosofia na PUC-RS, em 1978, ofereceu a fundamentação teórica necessária ao aprofundamento de suas vivências sociais. Sob a influência da fenomenologia husserliana, da hermenêutica gadameriana, do marxismo crítico e da filosofia libertadora de Paulo Freire, Barp forjou uma síntese singular, conjugando rigor conceitual e sensibilidade empírica. Essa postura manifestou-se tanto na liderança de grupos de estudo dedicados a Sartre e Merleau-Ponty, quanto na coordenação de rodas de leitura em bairros periféricos de Porto Alegre e em comunidades rurais, evidenciando uma preocupação metodológica consistente com a articulação entre teoria e empiria popular.
No mestrado em Sociologia Rural na UFRGS, o professor Barp defendeu, em 1986, a dissertação intitulada A política de crédito rural e o capitalismo agrário no Rio Grande do Sul (1969–1982). Esse trabalho marcou sua formação e consolidou sua opção pelos estudos de sociologia rural. Por meio da articulação entre dados de arquivos do Banco do Estado do Rio Grande do Sul e entrevistas em profundidade realizadas em assentamentos e em fazendas familiares, ele demonstrou como as políticas de crédito, independentemente de sua orientação ideológica, reproduziam sistematicamente as diferenciações regionais e de classe. A confrontação entre os depoimentos dos agricultores e as estatísticas oficiais evidenciou a tensão estrutural entre modernização produtiva e exclusão social, abrindo novas possibilidades interpretativas para a sociologia rural gaúcha.
A migração para Rondônia, em 1984, para se vincular como professor permanente à Universidade Federal de Rondônia (UNIR), representou uma inflexão importante em sua trajetória intelectual, pois lhe permitiu penetrar numa outra realidade rural, com problemas e questões distintas daquelas de seu estado de origem. Durante sua permanência na UNIR, o professor Barp desenvolveu atividades tanto administrativas quanto de pesquisa. Como professor, presidiu a comissão de redação do primeiro estatuto e regimento da universidade, experiência que o introduziu ao planejamento institucional em contextos emergentes. Paralelamente, participou da pesquisa “Estudo socioeconômico dos projetos de colonização oficial no Estado de Rondônia” (1987-1988), financiada pela SUDAM. Este trabalho mapeou projetos de colonização, analisando os impactos econômicos, ambientais e culturais dos processos de ocupação territorial e destacando o papel das lideranças comunitárias nos conflitos fundiários e na organização de movimentos por terra. Em 1988, o professor Barp transferiu-se para a UFPA.
O doutorado em Ciências Sociais pela UNICAMP (1992–1997), que culminou na tese Fronteira da cidadania: cartografia da violência na Amazônia Brasileira, representou o ápice da maturidade intelectual de Barp. Baseado em métodos quantitativos e qualitativos, o estudo analisou os conflitos agrários no Acre, no Pará e em Rondônia. A pesquisa mostrou como a expansão das fronteiras agrícolas se choca com resistências múltiplas – desde ações de pistoleiros e omissões estatais até iniciativas de autodefesa comunitária. Ao conceituar a “cidadania incompleta”, Barp argumentou que os direitos formais garantidos pelo Estado são continuamente corroídos pela violência institucional e paraestatal, oferecendo uma contribuição teórica original aos estudos sobre democratização e direitos humanos no Brasil.
Ao retornar do doutorado, em 1998, o professor Barp inaugurou uma nova fase de solidificação institucional e inovação curricular na UFPA. Participou ativamente da consolidação da graduação em Ciências Sociais, introduzindo debates dedicados ao pensamento de Pierre Bourdieu. No Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, criado em 2000 como o primeiro da região Norte, desenvolveu seminários avançados sobre coesão social em contextos de fronteira e reprodução de capitais simbólicos, estimulando os alunos a integrarem análise estatística e pesquisa qualitativa em campo.
Produção Científica e Inovação Metodológica
Wilson Barp sempre buscou conectar as grandes teorias sociais às realidades concretas da Amazônia. Ao trabalhar com as ideias de Pierre Bourdieu sobre habitus, campo e capital simbólico, não se contentou em apenas aplicá-las: usou histórias e situações vividas em municípios paraenses para mostrar como conceitos aparentemente distantes podiam iluminar dinâmicas sociais específicas da região.
Junto com Daniel Chaves de Brito, organizou publicações que reuniram pesquisadores de várias universidades, profissionais da segurança pública e gestores. Essas iniciativas criaram espaços raros de conversa entre mundos que normalmente não dialogam: a academia, as delegacias, os tribunais. O resultado foram análises sobre milícias urbanas, corrupção judicial e novas formas de vigilância comunitária, temas que exigiam olhares vindos de lugares diferentes.
Ao longo de sua trajetória, Barp dedicou-se a entender as muitas faces da violência brasileira. Seus trabalhos percorreram desde os medos que habitam o dia a dia das grandes cidades até as redes de poder que se abrigam nas frestas do sistema de justiça. Em cada pesquisa, juntava a paciência da análise documental com a disposição de ouvir quem raramente tem voz, sempre tentando fazer com que teoria e vida real conversassem verdadeiramente.
O professor Barp também deu um passo decisivo ao fundar, em 2009, o Laboratório de Metodologias Informacionais da UFPA, com apoio da FAPESPA — uma inovação para a sociologia na região Norte. Esse espaço interdisciplinar reuniu sociólogos, estatísticos e especialistas em geoprocessamento para criar painéis visuais de indicadores de violência, mapas de conflitos e bancos de dados sobre prisões e reincidência criminal. O desenvolvimento de softwares de análise de redes sociais, empregados em diversas dissertações e teses até 2013, evidenciou sua habilidade em articular avanços tecnológicos às demandas investigativas das ciências sociais.
Como coordenador do Mestrado em Defesa Social e Mediação de Conflitos (2011–2014), do qual foi um dos idealizadores ao lado de Daniel Chaves de Brito e Jaime Luiz Cunha de Souza, o Professor Barp concebeu uma matriz curricular que integrava análise de redes, georreferenciamento e etnografia urbana. O curso visava capacitar agentes públicos, pesquisadores e lideranças comunitárias para a implementação efetiva de políticas voltadas à prevenção de conflitos.
Formação de quadros e legado institucional
A orientação de quatorze dissertações de mestrado e cinco teses de doutorado, cujos temas variaram da violência doméstica aos conflitos socioambientais em diversos contextos sociais, evidencia a abrangência da contribuição do professor Barp à formação de quadros científicos. Ex-orientandos ressaltam seu estilo de supervisão, pautado em diálogos de coautoria, valorização de saberes locais e rigor metodológico, sempre permeado pela responsabilidade social.
A obtenção da posição de professor titular na UFPA, em 22 de março de 2016, por meio da defesa de memorial, coroou quase três décadas de dedicação à sociologia amazônica e aos estudos sobre violência, e representou o reconhecimento institucional de sua trajetória intelectual singular. As homenagens do Conselho Universitário da UFPA e as menções honrosas concedidas pela UNIR atestaram sua contribuição essencial para o fortalecimento das instituições acadêmicas na Amazônia.
O legado de Wilson José Barp evidencia-se na consolidação da sociologia como campo de investigação, na modernização das metodologias de pesquisa em programas de pós-graduação e na articulação de uma rede de pesquisadores, gestores públicos e ativistas comprometidos com a justiça social. Seu compromisso inabalável com a tensão criativa entre teoria e prática, aliado à sensibilidade para amplificar vozes silenciadas e à ousadia em inovar métodos, continua a inspirar novas gerações de pesquisadores a investigar, com rigor analítico e empatia crítica, as fronteiras territoriais e epistemológicas que definem o Brasil contemporâneo.
A obra de Barp representa, em sua essência, a demonstração de que a sociologia brasileira, quando enraizada em seus contextos específicos e comprometida com a transformação social, pode oferecer contribuições universais à compreensão dos fenômenos sociais contemporâneos. Sua trajetória intelectual constitui um testemunho eloquente de que a excelência acadêmica e o compromisso social não apenas são compatíveis, mas se fortalecem mutuamente na construção de um conhecimento verdadeiramente emancipador.
Sugestões de obra do autor
BARP, Wilson José. Teoria do Conhecimento em Pierre Bourdieu. In: Maria José Jackson Costa. (Org.). Sociologia na Amazônia: Debates Teóricos e Experiências de Pesquisa. 1. ed. Belém: Universidade Federal do Pará, 2001, p. 13-30.
BARP, Wilson José. Violência: Conceito e Operacionalização. Novos Cadernos NAEA, Belém, v. 1, p. 85-114, 1998.
BARP, Wilson José; BARP, Ana Rosa Baganha. Tendência da violência no espaço agrário brasileiro: uma análise estatística. Conflitos no Campo Brasil 97, Goiânia, p. 14-17, 1998.
BARP, Wilson José. A formação das categorias sociais subalternas na Amazônia e a sua reconstituição da identidade no novo espaço social e ambiental. Reforma Agrária, Campinas, v. 22, p. 28-38, 1992.
BRITO, Daniel Chaves de; BARP, Wilson José. Ambivalência e medo: faces dos riscos na modernidade. Sociologias, p. 20-47, 2008.

