Teresa Maria Frota Haguette

Por José Benevides Queiroz (UFMA)

A pesquisa como fundamento do conhecimento sociológico.

Teresa Maria da Frota Haguette nasce em 1934, na cidade de Sobral, interior do Ceará. O casamento e as maternidades precoces fizeram-lhe adiar a feitura do ensino médio e entrada no superior. Premida pela necessidade de criar quatro filhos, volta a estudar em fins da década de 1950, quando faz o Artigo 99[1] e, em seguida, entra na Faculdade de Filosofia de sua cidade natal, onde se licencia, em 1964, em Letras Neolatinas.

Sua vinculação à sociologia se faz de maneira paulatina, não só pela docência, mas, principalmente, por meio da pesquisa. Logo após sua graduação, em 1965, inicia seus primeiros estudos de pós-graduação ao obter uma bolsa do Institut International de Recherche et Developpement en Vue des Pays em Voie de Developpement (IRFED), em Paris. Na volta ao Brasil, entre 1967 e 1970, Teresa Haguette trabalha na Secretaria de Planejamento e na Superintendência de Desenvolvimento Econômico do Ceará, neste último órgão ocupando o cargo de Coordenadora do Setor de Educação durante o Diagnóstico Geo-Sócio-Econômico do Estado do Ceará, que permitiu seu primeiro contato e trabalho com pesquisa. Algo que vai se consolidando mediante a sua entrada na docência do ensino superior, primeiro no Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), e, em seguida, no Departamento de Ciências Sociais e Filosofia, da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde passa a lecionar com recorrência Métodos e técnicas de pesquisa e, em 1972, faz o curso de Especialização em Teoria e Métodos de Pesquisas, ministrado na universidade pelo Programa de Aperfeiçoamento em Pesquisa Social do Nordeste (PRAPSON) do Banco do Nordeste.

Após se estabelecer profissionalmente no ensino superior, entre 1974 e 1977 a professora Teresa Haguette busca o aprofundamento intelectual e acadêmico quando cursa seu mestrado e doutorado em sociologia, na Syracuse University, nos Estados Unidos. No doutoramento, tem a oportunidade de sua primeira pesquisa autoral, resultando daí sua tese: “Relações entre Desenvolvimento Econômico, Dependência e Cidadania no Caso Brasileiro (1940 a 1975)”.

Retornando ao Brasil, ciente da importância da investigação empírica para a produção do conhecimento sociológico, ela se depara com um ambiente sem tradição de pesquisa. Por isso considera, seu “trabalho, principalmente no campo da pesquisa, como inovador e criador de uma base científica. Tratava-se de criar instituições, tradição e competência de pesquisa sociológica. Importando, antes de tudo, a formação de pesquisadores”. Em outras palavras, o retorno à UFC não resta conformado ao exercício da docência, indo além: o ensino deveria ser de forma perene cevado pela contínua produção do conhecimento sociológico.

Assim, essa importância da pesquisa na vida acadêmica materializa-se por meio de duas iniciativas capitaneadas pela professora Teresa Haguette: a criação do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais (NEPS), que ocorre em 1979, e a estruturação do Núcleo de Documentação Cultural (NUDOC), em 1983. Vinculado ao então Departamento de Ciências Sociais e Filosofia, da UFC, o NEPS, coordenado pela professora entre 1979 e 1983, apresenta-se como um empreendimento que antecipa o que ordinariamente vemos hoje nos grupos e laboratórios de pesquisas dos programas de pós-graduação em Ciências Sociais e Sociologia. Com a clareza da falta de apoio – local e, até mesmo à época, nacional – para a produção do conhecimento científico, o referido núcleo estabelece como objetivo principal, segundo ela, “estimular a pesquisa na área das Ciências Humanas, visando à compreensão científica da realidade socioeconômica regional”. A arquitetura teórica-organizacional do NEPS estava toda ela voltada para a viabilização da produção do conhecimento: além das instalações, estabelece linhas de pesquisas, corpo docente permanente, programação de debates e seminários, desenvolvimento de pesquisas, orientações de monografias e dissertações etc. Dentre as pesquisas ali desenvolvidas, a professora Teresa Haguette realiza duas: “Renda Complementar das Famílias de Baixa Renda em Fortaleza” e “A Situação Socioeconômica de um Distrito Pesqueiro do Ceará”. Posteriormente, com as consolidações do Departamento de Ciências Sociais e da Pós-graduação em Sociologia da UFC e, como consequência, a especialização do conhecimento, o NEPS cede lugar aos novos grupos e laboratórios de pesquisa. Algo que não ocorreu com o NUDOC. Este núcleo, que estabelece como objetivos gerais preservar, divulgar e dialogar com os distintos acervos documentais (impressos, orais, digitais, iconográficos, entre outros), existe até hoje e se encontra sob a responsabilidade do Departamento de História da universidade. Em seu memorial, a professora Teresa Haguette declara: “considero a criação e coordenação destes dois núcleos o trabalho mais fecundo que realizei nestes anos. Aí pude, em equipe, coordenar pesquisas e formar pesquisadores”.

Essa estreita relação com a pesquisa sociológica faz a professora Teresa Haguette ser convidada e prestar assessoria tanto para órgãos nacionais – SESI e SUDENE, por exemplo –, como para secretarias – de educação, de planejamento – do Ceará e de outros estados. O reconhecimento dessa sua expertise permite que, em 1984, passe um breve período como pesquisadora na Universidade de Oldenburg, na Alemanha, e, no ano seguinte, como professora visitante na Universidade do Tennessee, nos Estados Unidos.

A sistemática elaboração e desenvolvimento de projetos de pesquisas redundam em diversas publicações, quer divulgando os resultados de estudos elucidadores da realidade social, quer contribuindo para o saber fazer de pesquisadores. Dentre outros, por exemplo, dois livros da professora Teresa Haguette expressam esta ponderação. O livro O mito das estratégias de sobrevivência: um estudo sobre o trabalhador urbano e sua família, publicado em 1982, resulta de uma pesquisa que tem como ponto de partida e busca responder a seguinte questão: “como as populações de baixa renda conseguem atender às suas necessidades básicas?”. Como expresso no título, o estudo se faz num contexto em que prevalece a crença compartilhada de que a renda extratrabalho é que assegurava a sustentação das famílias. Recorrendo ao uso de levantamento de dados, entrevistas e aplicação de questionários em cinco áreas de baixa renda da Região Metropolitana de Fortaleza, investigando em cada área 30 famílias, perfazendo no total 150, a pesquisa desconstrói a certeza do senso comum apresentando o seguinte resultado: “…a renda extratrabalho das famílias [pesquisadas] sequer se aproxima de 10% da renda global”. Na verdade, “a renda-trabalho média per capta familiar das cinco áreas de análise atinge 93,69%”. Isto é, a pesquisa dá a conhecer que as estratégias não laborais de sobrevivência são secundárias. Por seu turno, o livro Metodologias qualitativas na sociologia, cuja primeira edição data de 1987, apresenta como algumas vertentes teóricas da sociologia operam procedimentos qualitativos voltados à apreensão e desvelamento dos fenômenos – passados e presentes – que surgem, tendem obnubilar e, muitas vezes, justificam a realidade social; a observação participante, a história de vida, a história oral, a pesquisa ação, a pesquisa participante, o holismo  e o individualismo metodológico são apresentados sob a égide de várias teorias. A obra não passa despercebida para a/os pesquisadora/es. A importância da publicação desse livro nas ciências sociais brasileiras pode ser aquilatada por seu impacto editorial: após lançamento, ele é reeditado mais treze vezes, tendo a última (14ª) ocorrida em 2013; ao longo dos mais de vinte e cinco anos de reedições, segundo informação obtida junto à Editora Vozes, foram vendidos 15.750 exemplares de Metodologia qualitativas na sociologia, algo incomum nesta área do conhecimento.

Toda a experiência com a pesquisa sociológica da professora Teresa Haguette, associada estreitamente à docência, com grandes possibilidades de formar novos pesquisadores e desenvolver mais estudos, é interrompida prematuramente, em 1995, com o seu falecimento.

Sugestões de obra da autora

HAGUETTE, Teresa Maria F. O Mito das Estratégias de Sobrevivência. Fortaleza: EUFC, 1982.

HAGUETTE, Teresa Maria F. HAGUETTE, A. O Pequeno Produtor Rural e a Estrutura de Poder. Fortaleza: EUFC, 1984.

HAGUETTE, Teresa Maria F. (Org.). Memória das Ciências Sociais na UFC – Um exercício de análise institucional. Fortaleza: Edições UFC, 1991.

HAGUETTE, Teresa Maria F. O Cidadão e o Estado. Fortaleza: EUFC, 1994.

HAGUETTE, Teresa Maria. F. Metodologias Qualitativas na Sociologia. 14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.

[1] Denominação dada ao antigo curso supletivo, realizado por quem não havia feito o curso ginasial ou científico no período estabelecido.