Paola Cappellin

Por Paula Menezes (UFF) e Raquel Giffoni Pinto (UFF)

Em um capítulo significativo da história da democracia no Brasil, nada mais justo que recuperar a memória de uma das intelectuais da Sociologia brasileira cuja trajetória reflete importantes momentos de reconstrução democrática no século XX.

Paola Cappellin nasceu em Florença no ano de 1948, filha de um partisan que lutou contra a ocupação nazista, cuja história a própria publicou em seu último livro (Maurizio Cappellin, cent’anni della nascita, 2025). Formou-se em Sociologia na primeira Facoltà di Sociologia da Itália, a Libera Università degli Studi di Trento, em 1971. Realizou o mestrado em Ciência Política e Sociologia no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), onde defendeu, em 1978, a dissertação “Tocando as máquinas: as condições de existência das operárias”, sob orientação do professor Luiz Antonio Machado da Silva. Em 1984, obteve o doutorado em Ciência Política e Sociologia pela Université de Paris X – Nanterre, com a tese “Relations agriculture – industrie et marché du travail en Brésil”.

Sua chegada na América do Sul em 1976 inicia-se em Córdoba, na Argentina, onde permanece por pouco tempo devido ao cenário de golpe militar no país. Neste momento, vem ao Brasil realizar seu mestrado para, em seguida, iniciar sua trajetória na Universidade Brasileira como professora e pesquisadora.

Paola Cappellin integra a geração que contribuiu para a expansão e consolidação da Sociologia no Brasil. Entre 1978 e 1988 foi professora do então recém-criado Mestrado em Sociologia, com área de concentração em Sociologia Rural, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), campus de Campina Grande. Em 1988, ingressou como professora no Departamento de Sociologia e no Mestrado em Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), hoje Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, onde lecionou por mais de duas décadas.

Desde seus primeiros anos no Brasil, Paola esteve em relação com os movimentos sociais para a reconstrução dos fóruns democráticos, sendo seus principais interlocutores para sua produção intelectual. Participou da construção da Secretaria das Mulheres da Central Única dos Trabalhadores (CUT) junto com Didice Godinho Delgado, que foi a primeira coordenadora nacional do Comitê das Mulheres Trabalhadoras (1987-1993). Este período proporciona a Cappellin uma reflexão importante sobre as mulheres sindicalistas, trazendo uma leitura sobre as convergências e conflitos entre as organizações de mulheres e os sindicatos. Ela está ao lado dos grandes nomes dos estudos sobre mulheres trabalhadoras e suas organizações como Elisabeth de Souza-Lobo, Vera Soares, Regina Novais e Maria Valéria Pena, dentre outras. Destaca-se igualmente seu trabalho frente à Organização Internacional do Trabalho (OIT-Brasil), junto a Lais Abramo, que resulta em um estudo realizado em 2003 sobre a atuação dos Núcleos de Promoção de Igualdade de Oportunidades e de Combate à Discriminação no Emprego e na Ocupação, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Contribuiu ainda com diversas organizações sociais feministas, tais como o Centro Feminista de Estudos e Assessoria e a Elisabeth Lobo Assessoria (ELAS).

Para compreender o mundo do trabalho em sua totalidade, Cappellin não apenas teve as trabalhadoras e os trabalhadores como interlocutores, mas procurou igualmente entender o mundo empresarial brasileiro, dedicando estudos sobre as ações afirmativas nas empresas e a responsabilidade empresarial. Neste sentido, a autora assina inúmeros trabalhos entre 1999 e 2010, dentre os quais destacamos Entre tutela, promoções e novas discriminações de gênero. Um confronto sul e norte desde os anos 1990, escrito com Alessandra Vicentini e As desigualdades impertinentes: telhado, paredes ou céu de chumbo?, onde analisa as nuances das promoções das mulheres em postos de comando, ainda limitadas aos setores mais feminizados. Há ainda vasta produção sobre a sociologia da empresa, que enfatiza como esses agentes organizam seus interesses e respondem a normas legais e sociais, sempre à luz de seu contexto histórico e seu enraizamento territorial.

O rigor analítico de Paola se alia a uma inegável generosidade intelectual. Paola sempre procurava envolver os estudantes em suas pesquisas e publicações científicas. Pesquisadora de grande produção acadêmica, nunca deixou que suas atividades de pesquisa diminuíssem seu compromisso com o ensino. Cada aula era cuidadosamente planejada, com o propósito de estimular os estudantes para desenvolverem sua imaginação sociológica. Paola via seus estudantes e orientandos como interlocutores e apresentava os debates do mundo da Sociologia para que os estudantes se posicionassem diante deles.

O vínculo permanente que mantinha com a sua terra natal foi determinante para a promoção da cooperação científica e do intercâmbio em políticas públicas entre a Itália e o Brasil. Foi notável seu empenho constante nessa direção. Integrou a coordenação brasileira do acordo bilateral entre o Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e o Departamento de Sociologia da Università degli Studi di Padova, estendendo-o também à Università degli Studi di Urbino, ampliando as oportunidades de pesquisa para jovens pesquisadores brasileiros.

Dentre suas últimas publicações, gostaríamos de ressaltar outro aspecto importante da obra de Cappellin, que é sua dedicação ao tema da memória. Organizado com Gian Mario Giulliani, Ari Oro, Vicenzo Pace e Carla Brandalise, o livro Entre memória e mercado. Famílias e empresas de origem italiana no Brasil (2010) é resultado de uma cooperação entre a UFRJ e aUniversità degli Studi di Padova, onde os autores analisam a reprodução social da empresa familiar de origem italiana no Brasil. Os estudos trazem com clareza o peso das narrativas herdadas (neste caso da italianidade e da origem pobre) como fundamentais para o formação do discurso empresarial, mas sendo igualmente “esquecidas” por imigrantes de 2ª ou 3ª geração.

Em seu livro, escrito com Maria Cristina Rodrigues e Lucilia Aguiar, Vozes do passado e do presente. O trabalho das mulheres nas telecomunicações (2013), o tema da memória aparece associado ao trabalho de arquivo com  fotos e imagens dos ambientes de trabalho e de carteiras profissionais, assim como a publicação dos depoimentos de onze trabalhadoras, como no famoso livro de Pierre Bourdieu, A Miséria do Mundo. O livro foi publicado pelo Sinttel-Rio e pelo Núcleo Arquivo de Memória Operária do Rio de Janeiro (AMORJ), da UFRJ, onde Paola atuou como coordenadora de pesquisas sociológicas.

Em um contexto social marcado pela emergência de neofascismos e por discursos e práticas que negam sistematicamente os direitos das mulheres, revisitar a trajetória e os textos de Paola Cappellin inspira-nos, enquanto professoras e pesquisadoras, o compromisso com o ensino e a pesquisa engajada, assim como a valorização dos e das trabalhadoras como interlocutores na construção de nossas reflexões teóricas.  

Sugestões de obras da autora

CAPPELLIN, Paola. Ocupando Um Espaço Político; As Trabalhadoras Rurais e Sindicatos. DEBATE SINDICAL, SAO PAULO, v. 1, n.10, p. 35-43, 1989.

CAPPELLIN, Paola. Viver o Sindicalismo no Feminino. Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v. 2, n.1, p. 271-290, 1994.

CAPPELLIN, Paola; GIULIANI Gian Mario. The political economy of corporate responsability in Brazil, In: United National Research Institute for Social Development, paper n. 14, Geneva, 2004.

CAPPELLIN, Paola. Les professions de pink collar au Brésil et au Canada. In: GOMEZ, Gerárd; KESSELMAN, Donna (org). Les femmes dans le monde du travail dans les Amériques. Presses universitaires de Provence, 2016.

CAPPELLIN, Paola. Regulação social e empresas globais. Novos conceitos para velhos problemas? TEORIA JURÍDICA CONTEMPORÂNEA, v. 4 n. 1, p. 267-292, 2019.