Moacir Palmeira

Por Marcos Otavio Bezerra (UFF)

Moacir Palmeira é Professor Emérito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ). É conhecido pela capacidade singular de articular a condução de projetos coletivos de pesquisa, a produção de conhecimento com engajamento político em prol da democracia e da formação de antropólogos (as). Na prática de ensino, é lembrado pelo olhar atento aos argumentos e evidências dos textos, a defesa do investimento das teorias nos dados como condição para o avanço do conhecimento e a generosidade na escuta e discussão dos trabalhos de colegas. Seus textos reúnem contribuições teóricas e empíricas para os estudos de sociologia da produção intelectual, plantation canavieira no Nordeste, migração, movimentos sociais no campo, campesinato e política, agronegócio e antropologia da política. A “trajetória que eu consegui ter até agora”, avalia Moacir, “foi melhor do que aquela que eu imaginava”.

Moacir Gracindo Soares Palmeira nasceu em Alagoas, em 1942. Sua casa era ao mesmo tempo um centro político e lugar de convívio de intelectuais alagoanos. Seu pai, Rui Soares Palmeira (advogado, jornalista e político), o aproximou desde a infância da política. Em 1951, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Moacir deu continuidade aos estudos, em um colégio de classe média, em Copacabana. A experiência familiar e o interesse cultivado pelos debates dos “problemas nacionais” e das “questões internacionais” o levaram a ingressar no curso de Ciências Políticas e Sociais da PUC-Rio (1961-1964).

A graduação foi marcada pelo contexto que antecedeu o golpe militar de 64 e pelos investimentos em sua profissionalização. Já nos primeiros meses, Moacir participou de treinamentos de pesquisa de campo no Rio de Janeiro e Alagoas. No período de 1962 a 1963, conciliou a graduação com um curso de especialização em “Treinamento Básico em Ciências Sociais”, na Universidade Federal da Bahia. Resultou, dessa experiência, a monografia Banditismo Político e Estrutura Social voltada para analisar a violência política em Alagoas. Formado no ano do golpe, Moacir permaneceu no Rio, dedicando-se a trabalhos intermitentes de ensino, pesquisa e editoração. Em 1966, obteve uma bolsa de cooperação técnica para participar de um projeto de pesquisa no Institut des Hautes Etudes de l’Amérique Latine (IHEAL). Quando chegou a Paris, foi informado da inexistência do projeto e mudou seus planos, sendo estimulado a fazer o doutorado. Na Université René Descartes, elaborou a tese Latifundium et Capitalisme au Brésil: lecture critique d’un débat, entregue em 1969 e defendida em 1971.

Moacir iniciou suas atividades no PPGAS, em 1969, como pesquisador no “Projeto Estudo Comparativo do Desenvolvimento Regional”. Em 1975, foi efetivado como professor da UFRJ. Afastou-se da universidade entre 1978 e 1980 para atuar como assessor da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), função que seguiu exercendo em caráter parcial até 1989. Alinhado com o movimento sindical, assumiu o cargo de Diretor de Recursos Fundiários do INCRA e o desafio de implementar o I Plano Nacional de Reforma Agrária, entre julho de 1985 e julho de 1986. De volta ao PPGAS, tornou-se professor titular em 1994.  Participou da criação, em 1997, do Núcleo de Antropologia da Política (NUAP), que dirigiu até 2013. Aposentado compulsoriamente, manteve sua rotina de atividades como professor colaborador voluntário, rotina reinventada após o incêndio do Museu Nacional, em 2018, que destruiu sua biblioteca, arquivo pessoal e acervo de pesquisas.

A pesquisa iniciada por Moacir na área canavieira de Pernambuco, no âmbito do projeto sobre o desenvolvimento regional, se estendeu pelos anos 1970 e 1980 com a aprovação do projeto coletivo “Emprego e Mudança Socioeconômica no Nordeste” (1975-1978), sob sua coordenação. Os dois projetos criaram oportunidades para a realização de um amplo plano de pesquisa empírica já esboçado em sua tese. A partir da ideia da plantation como um modo de produção específico, a equipe analisou, inspirada em proposições de Pierre Bourdieu, o sistema da plantation açucareira e suas transformações em termos do conjunto de suas posições e oposições sociais.

Ao longo do trabalho de campo, a equipe tomou conhecimento da atuação sindical e das amplas mobilizações de trabalhadores rurais. O encontro, além de estar na origem de reflexões sobre os movimentos sociais no campo e a atuação política do campesinato no período pós-64, produziu laços de cooperação e amizade que se mantêm até hoje. A eles estão associadas as idas de Moacir para a CONTAG, o INCRA e o projeto Memória Camponesa (2004-2010), que reuniu relatos de militantes e dirigentes sindicais sobre a violência e resistência dos trabalhadores rurais durante os governos militares (disponível no site Memov.org.).

Uma etnografia retrospectiva - Editora 7Letras

Moacir retomou os temas da reforma agrária, das grandes plantações e das transformações das relações sociais no campo por meio de duas pesquisas. A primeira, “Impactos Regionais da Reforma Agrária: Um Estudo Sobre Áreas Selecionadas (2000-2001)”, dirigida com colegas do IFCS/UFRJ e do CPDA/UFRRJ, analisou os “impactos econômicos, políticos e sociais gerados” por assentamentos rurais. A segunda, “Sociedade e Economia do Agronegócio” (2007-2013), coordenada pela mesma equipe, investiu no mapeamento das relações sociais que dão existência ao chamado agronegócio como expressão moderna do mundo rural.

De volta à universidade, no fim dos anos 1980, tendo acompanhado o fracasso das candidaturas das lideranças camponesas a cargos eletivos, Moacir traz na bagagem a observação da dissociação entre a atuação sindical e o voto. Com o projeto “Concepções de Política e Ação Sindical” (1988), dividido com Beatriz Heredia, ele continua a pesquisa sobre o tema da política nos termos que o motivou no início da carreira. A partir de uma perspectiva etnográfica e comparativa, a pesquisa investigou a concepção, delimitação e o significado que as pessoas atribuem ao que identificam como política. Esta forma de olhar para a política ganhou impulso e novos interlocutores com a aprovação do projeto “Uma Antropologia da Política: Representações, Rituais e Violência” (1997-2005), dirigido por Moacir e colegas do PPGAS/MN, UNB e UFC. Nestes projetos, Moacir analisou eleições, voto, lutas faccionais, comícios e “o tempo da política”, entre outras coisas. O projeto deu origem ao NUAP, que segue ativo, e à Coleção Antropologia da Política, que reúne 33 livros (www.nuap.etc.br.).

As contribuições de Moacir em suas “tentativas de [fazer] sociologia (ou antropologia ou de sociologias, como eu prefiro)”, como disse, se expressam nos reconhecimentos institucionais de sua trajetória profissional: pesquisador de produtividade 1A-CNPq, bolsista Cientista de Nosso Estado-FAPERJ, Professor Titular da UFRJ (2014), Prêmio ANPOCS de Excelência Acadêmica Gilberto Velho (2015), doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Alagoas (2015), Professor Emérito da UFRJ (2023) e Medalha Roquette Pinto-ABA (2024).

 Sugestões de obras do autor:

PALMEIRA, Moacir G.S.; Castro, Elisa G. de e Lagües, João V. M. (org.) Uma etnografia retrospectiva. Escritos de Moacir Palmeira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2024.

PALMEIRA, Moacir. G. S. Memorial do Candidato. Mana, v. 20, p. 371-409, 2014

PALMEIRA, Moacir. G. S. e Heredia, Beatriz. Política Ambígua. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2010.

PALMEIRA, Moacir. G. S.; Leite, Sérgio; Heredia, Beatriz; Medeiros, Leonilde; Cintrão, Rosângela. Impacto dos Assentamentos: Um Estudo sobre o Meio Rural Brasileiro. Brasília, NEAD: São Paulo, Ed. UNESP, 2004.

PALMEIRA, M. G. S. Latifundium et Capitalisme au Brésil: lecture critique d’un débat. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) – Université René Descartes, Paris, 1971.

Depoimentos

LEITE LOPES, José Sérgio. Entrevista com Moacir Palmeira. Horizontes Antropológicos, n.39, p. 435-457, 2013.

MATTOS, Geísa. Entre cinzas e brasas que resistem: 50 anos de antropologia e lutas políticas. Revista de Ciências Sociais, vol. 51(3), p.359-383, 2021.

PALMEIRA, Moacir G. S. Coleção Trajetórias. Série Moacir Palmeira. Memov.org./CBAE.

PALMEIRA, Moacir G. S. Moacir Gracindo Soares Palmeira (depoimento, 2009 /2012). Rio de Janeiro, CPDOC/Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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