Por Juliana Cristina da Rosa (NERU/UFMT)
João Carlos Barrozo nasceu no distrito de Entrepelado do município de Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, em 9 de dezembro de 1944, filho de Pedro Fernandes Barrozo e Nelita Capovilla Barrozo. Aos 15 anos, foi para o Colégio Santo Inácio da Ordem dos Jesuítas em Salvador do Sul, onde finalizou sua formação do antigo ginásio e depois realizou o Ensino Médio no Colégio Catarinense dos Jesuítas em Florianópolis, Santa Catarina. Em São Paulo, cursou Filosofia Escolástica e Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, conveniada com a Universidade de São Paulo (USP).
Durante a formação, teve sua primeira experiência de pesquisa em campo nos “toldos” dos povos indígenas Guarani e Kaingang no Alto Uruguai, no Rio Grande do Sul. A partir dessas experiências, decidiu pelas Ciências Sociais. Durante sua graduação, realizou estágio e pesquisas em Alto Paraguai, Mato Grosso, cidade marcada pelas atividades de garimpo, em 1968. No final do mesmo ano até os primeiros meses do ano seguinte, realizou pesquisa socioeconômica coordenada pela Prelazia de Ponta de Pedras, na cidade de Santa Cruz do Arari, na Ilha do Marajó. Em julho de 1969, realizou outra pesquisa na cidade de Simplício Mendes, no Piauí, coordenada pela Prelazia de Oeiras, da Congregação Franciscana. Atuou como professor no Colégio Diocesano dos Jesuítas em Teresina, em 1970. Em 1971, retornou ao Mato Grosso, para Alto Paraguai, onde permaneceu até 1976 realizando trabalho social ligado à instituição jesuíta, até que passou a atuar como professor da Educação Básica ministrando aulas de Sociologia, História e Geografia.
Sua trajetória durante a juventude foi marcada, além dessas experiências de pesquisa e ensino, por inúmeras viagens realizadas e cheia de surpresas, como a em 1973, quando ficou por um mês numa viagem, por terra, pela Amazônia, a partir de Cuiabá até a cidade de Manaus. Daquela capital, partiu, de barco, para Santarém e até Itaituba no Pará. Depois atravessou, por terra, pela Rodovia Transamazônica em construção, até atingir a Rodovia Belém-Brasília que, na época, estava sendo asfaltada. Depois de mais de um mês, retorna a Alto Paraguai, onde desenvolveu suas atividades de ensino e se casou com Luzinete Reis Barrozo.
Foi convidado para ministrar aulas de Sociologia Rural na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em 1977, após a fundação da instituição conhecida como “Universidade da Selva”. Atuou como diretor do campus avançado da UFMT em Pimenta Bueno, em Rondônia, em 1984. No ano seguinte, foi um dos criadores do Grupo de Estudos Rurais (GERA) com colegas professores da Sociologia e Educação que foi o “embrião” do Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos (NERU), criado em 1988, e que está ativo até os dias atuais, sendo liderado pelo Professor João Barrozo. O NERU congregou em torno de si inúmeros professores, pesquisadores e estudantes com produção de grande repercussão e desenvolveu metodologias de pesquisa-ação inovadoras.
Sua trajetória acadêmica foi marcada pela realização do Mestrado em Sociologia, entre 1980 e 1983, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), sob a orientação da professora Maria de Nazaré Wanderley Baudel. O tema, na época ainda pouco explorado, estava ligado à identificação de situações de trabalho análogo à escravidão e sua dissertação foi intitulada Exploração e escravidão nas Agropecuárias da Amazônia Mato-grossense.
A pesquisa de doutorado, que ocorreu entre 1994 e 1997, refletia suas experiências em Alto Paraguai e foi intitulada Em busca da pedra que brilha como estrela: Um estudo sobre o Garimpo e os Garimpos do Alto Paraguai-MT, sob a orientação da professora Maria Aparecida de Moraes Silva, que abordava temas como migração, trajetórias e gênero, a partir de narrativas de garimpeiros e mulheres, e que resultou na publicação em formato de livro, em 2007.
Além da realização de suas pesquisas acadêmicas ligadas ao mestrado e doutorado, também participou no desenvolvimento de diversos trabalhos de campo realizados, sobretudo, na Amazônia Mato-Grossense. Atua, mesmo após a aposentadoria, como orientador e pesquisador ligado à linha de pesquisa “Fronteira, Colonização e Conflitos Socioambientais” do NERU e à de “Território, Temporalidades, Poder” do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) da UFMT, no qual atua desde a fundação, em 1999, e orienta estudantes da graduação e da pós-graduação até os dias atuais.
Suas pesquisas e orientações estão voltadas a temáticas como migração, trajetórias, fronteiras, conflitos, expansão do agronegócio e outras questões da Sociologia Rural, mas com uma relação direta com a História Oral, de modo que fez parte da Associação Brasileira de História Oral (ABHO).
A partir de sua trajetória de vida, das diversas experiências de trabalho de campo e do desenvolvimento de grupos de estudos ao longo de décadas, João Carlos Barrozo se tornou um pesquisador de grandes projetos, como o “Avaliação dos Projetos de Colonização Oficial no estado de Mato Grosso”, que foi solicitado e financiado pela Superintendência de Desenvolvimento de Amazônia (SUDAM). Essa pesquisa teve como foco os projetos de colonização ao longo da Rodovia Cuiabá-Santarém, a BR-163, no Mato Grosso e ocorreu entre 1988 e 1989. Os resultados dessa pesquisa foram publicados em relatórios técnicos e no livro A Colonização em Mato Grosso: A nata e a borra da sociedade, organizado por ele e pelos colegas Sueli Pereira Castro, Marinete Covezzi e Oreste Preti, publicado em 1994.
Junto ao NERU, participou de projeto financiado pelo Ministério da Tecnologia da Alemanha, através de Convênio de cooperação científico-tecnológica Brasil-Alemanha, do Programa SHIF, que ocorreu entre a UFMT e Universidade de Tubingen, Alemanha, durante a década de 1990, e que resultou em dois estágios nesta instituição de educação superior alemã, em 1993 e em 1996, bem como sua participação ativa no projeto “Estrutura socioeconômica e dinâmica dos impactos ambientais na Bacia do Alto Paraguai (1990-1997)”.
Outros projetos de pesquisa resultaram em orientações e pesquisas que foram base de publicações, como o livro organizado por João Carlos Barrozo, intitulado Diamantino: do extrativismo à Agricultura moderna, publicado em 2002. Atuando e orientando no PPGHIS, desenvolveu e acompanhou pesquisas que foram reunidas em formato de capítulos de livro em obras por ele organizadas, como “Do Sonho à Utopia da Terra” publicado em 2008 e “Mato Grosso: A (Re) Ocupação da Terra na Fronteira Amazônica (Século XX)”, de 2010.
Após a aposentadoria em 2004, continuou atuando junto ao PPGHIS/UFMT e como professor em cursos de graduação, como Ciências Sociais e História da Universidade Federal do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), entre 2004 e 2017. No Araguaia Mato-grossense, desenvolveu pesquisas e orientações de monografias da UNEMAT e dissertações ligadas ao PPGHIS/UFMT, que resultaram em outras publicações organizadas por João Carlos Barrozo, como Araguaia: O (Des) Encontro de Diferentes Agentes Sociais, publicado em 2016, e Norte Araguaia: Territórios e Conflitos, lançado em 2019.
Ademais, realiza pesquisas individuais que resultaram em outras obras, como Fronteiras de Mato Grosso: em busca do Eldorado e da terra prometida, publicado em 2017, com reflexões sobre essa temática que atravessou sua trajetória de vida pessoal e acadêmica. Concomitantemente, deu andamento a parcerias com pesquisadores como o geógrafo alemão Martin Coy e seus orientandos Edison Antonio Souza, que organizaram junto com João Carlos Barrozo o livro Estratégias de expansão do agronegócio em Mato Grosso: Os eixos da BR-163 e da BR-158 em perspectiva comparativa, lançado em 2020.
Atuou ainda como professor visitante, entre 2018 e 2022, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), onde desenvolveu atividades de ensino, orientação e a organização do livro Expansão da Fronteira em Rondônia: Impactos Socioambientais, publicado em 2022. Paralelamente, através de outra parceria com o historiador João Antônio Botelho Lucídio, publicou, em 2022, a obra intitulada Diamantino: de George H. Langsdorff (1827/1828), Francis Castelnau (1844/45) à redescoberta dos diamantes (1930/40). Em 2025, publica a obra
Atualmente, permanece como professor colaborador do PPGHIS e pesquisador líder do NERU no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, desenvolvendo pesquisas e escrevendo outras obras, além de incentivar seus orientandos e outros alunos, professores e pesquisadores, com seu exemplo de uma trajetória marcada com vigor, dedicado à vida acadêmica e à pesquisa.
Sugestões de obras do autor:
CASTRO, Sueli P.; BARROZO, João Carlos; COVEZZI, Marinete; PRETI, Oreste. A Colonização em Mato Grosso: A nata e a borra da sociedade. Cuiabá: Editora da UFMT, 1994.
BARROZO, João Carlos. Em busca da pedra que brilha como estrela: garimpos e garimpeiros do Alto Paraguai-Diamantino. Cuiabá: Editora da UFMT/Tanta Tinta, 2007.
BARROZO, João Carlos. Mato Grosso: Do Sonho à Utopia da Terra. Cuiabá: Editora da UFMT, 2008.
BARROZO, João Carlos; LUCÍDIO, João Antônio. Diamantino: de George H. Langsdorff (1827/1828), Francis Castelnau (1844/45) à redescoberta dos diamantes (1930/40). Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2022. v. 500. 127p.
BARROZO, João Carlos; DA COSTA, Anna Maria R. F. M. Diários de Fritz Tolksdorf: Uma Vida no Arinos. Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2024.

