Por Marilene Canto Leite
A professora Heloísa Lara Campos da Costa fez sua graduação em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) e iniciou sua carreira trabalhando como pesquisadora na área de Sociologia Rural.
Indicada pelo seu professor Florestan Fernandes, foi trabalhar em uma Instituição de desenvolvimento rural denominada Serviço Social Rural, cujo foco era realizar pesquisas em municípios estratégicos do interior de São Paulo, fornecer diagnósticos que permitissem identificar e elaborar projetos para possíveis soluções.
Fez vários trabalhos em diversos municípios, principalmente na região do Vale do Paraíba estacionada numa fase pré-industrial, grassava em pobreza, o que lhe valeu o apelido de Vale da Miséria e Paraíso das Instituições.
Mais tarde, a Instituição em pauta passou a se chamar Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário e a operar com projetos de cooperativismo e colonização. Isso a levou a fazer uma especialização em Cooperativismo Rural na Universidade de Wisconsin nos Estados Unidos. Continuou o trabalho nessa área, por alguns anos, em São Paulo e, mais tarde, casou-se com um amazonense e veio morar em Manaus. Aqui ainda trabalhou na área de sociologia rural, vindo a publicar um estudo sobre a implantação e desenvolvimento das cooperativas do Estado do Amazonas, pela Secretaria de Agricultura do Estado.
A Professora Heloisa Lara foi responsável pela elaboração do projeto de implantação do Distrito Agropecuário da Zona Franca de Manaus, sob a contratação da Suframa, com a colaboração de engenheiros agrônomos de Manaus e da Polônia.
Sempre como pesquisadora, foi trabalhar na Associação de Crédito e Assistência Rural do Amazonas na época do regime militar, o que lhe valeu significativa experiência sobre a realidade amazônica, dado que fez vários estudos sobre municípios do interior. Contudo, com a mudança de metodologia do Órgão, desinteressou-se de suas pesquisas e prestou concurso na Universidade Federal do Amazonas, lá permanecendo até sua aposentadoria.
Adentrando na Universidade, passou a se debruçar sobre os problemas da Amazônia e particularmente das condições femininas.
Ministrou cursos em vários departamentos da Universidade, até que, com a criação do curso de Ciências Sociais, fixou-se na área, trabalhando com as teorias, metodologia da pesquisa e epistemologia, procurando sempre despertar nos alunos o interesse pelos estudos da Amazônia e das condições femininas.
A professora Heloísa foi pioneira nos estudos sobre relações de gênero na Universidade. Acostumada a trabalhar em equipe, organizava aulas sobre um tema comum, abordado por professores de vários departamentos como, por exemplo, os da psicologia, educação, filosofia e antropologia, o que tornava suas aulas de epistemologia muito interessantes.
Demonstrava paixão pela pesquisa científica, despertando nos alunos a motivação para a pesquisa e descoberta do conhecimento. Muitos realizaram o Mestrado e alguns o Doutorado, vindo a serem docentes na Universidade.
Imbuída de grande entusiasmo, criou, juntamente com outros colegas, o Núcleo sobre Relações de Gênero no Amazonas (NEIREGAM), responsável por cursos no Mestrado em Sociologia, cursos de extensão, palestras, artigos em revistas e participação em movimentos sociais.
Criou também, juntamente com colega docente, um programa semanal na rádio Rio Mar, cuja audiência chegou a ficar em primeiro lugar, na qual, com o auxílio de profissionais convidados, foram debatidas questões de interesse das mulheres e conscientização para crescimento de sua cidadania.
Como todo pesquisador que estuda mulheres, como decorrência até natural, ocupou-se com estudos sobre a família e crianças, devido serem assuntos interligados. Assim, produziu com o professor José Aldemir uma pesquisa sobre Família e Sociedade em áreas de ocupação em Manaus, a convite da CNBB. Esse estudo teve um desdobramento num trabalho de extensão com as famílias do bairro em questão, denominado Compensa.
No Mestrado, realizado no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), sua dissertação focalizou as condições da exploração feminina no processo de trabalho em empresa, numa interconexão de questões econômicas, políticas e culturais. Na sua tese de Doutorado, intitulada “No Limite do Possível: As Mulheres e o Poder na Amazônia”, analisou, dentro de uma perspectiva weberiana, o pensamento social brasileiro sobre as mulheres, buscando a sua especificidade na Amazônia, no período de 1840 a 1930. Em 2005, a tese virou livro e foi publicada pela editora da Universidade Federal do Amazonas (EDUA)Políticas Públicas com o título As Mulheres e o Poder na Amazônia..
Sempre demonstrou uma identificação com a Universidade Federal do Pará, tendo realizado pesquisas conjuntas que resultaram na publicação de dois livros: Zona Franca de Manaus: Os filhos da Era Eletro-eletrônica (Moura et al., 1993) e Políticas Públicas, Desigualdades Sociais e Crianças no Amazonas ((Costa et al., 1993).
Ainda com a Universidade do Pará, realizou pesquisa sobre Levantamento e Análise dos Projetos Ambientais em Manaus e com a Universidade de São Paulo-USP, Departamento de Economia: Inclusão e Exclusão Social dos Índios no Amazonas.
Por motivo de doença grave que acometeu seu esposo, mudaram-se para Brasília, onde seus filhos já residiam.
Por fim, cabe aqui meu depoimento pessoal, conheci a professora Heloísa Lara na graduação de Ciências Sociais. Com ela cursei várias disciplinas, além de métodos e técnicas de pesquisa. Juntas, realizamos alguns trabalhos, dentre eles, um planejamento para a Vara de Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de Brasília, cujo objetivo seria a implantação de políticas judiciárias para o segmento infanto juvenil.
Foram ideias de projetos viáveis com base em diretrizes normativas e possibilidade de articulação junto ao sistema de garantia de direitos (conjunto articulado de órgãos públicos para assegurar direitos da Criança e do Adolescente).
Com formação em Direito e Sociologia, passei a analisar a legislação aos vulneráveis, sob uma perspectiva mais inclusiva ao dar efetividade às leis. Essas áreas do conhecimento me possibilitam ampla contribuição entre os dois eixos, assim como me favorece corroborar o sistema de justiça.
Trabalho no Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas desde 2015, com a elaboração de políticas judiciárias aos jurisdicionados vulneráveis, tais como crianças, adolescentes e, atualmente, com pessoas em situação de rua. A perspectiva é efetivar direitos através de ações inclusivas, sobretudo, eficácia e efetividade ao exercício da atividade jurídica.

Acerca das pessoas em situação de rua, trata-se de um desafio aos órgãos de justiça sobre os caminhos para a sua proteção, com a efetividade legal, pois as diretrizes legais apontam para fluxos operacionais interinstitucionais. Nesse sentido, subsidiam reflexões e abordagem técnica especializada.
Com maior relevância, destaca-se os direitos de crianças e mulheres/mães em situação de rua que não encontram condições suficientes para o exercício da maternidade, sejam mulheres usuárias de drogas ou não, seja por falta de condições de saúde física e mental, condições de violência e a necessária intervenção do Judiciário para a situação, sobretudo, com a falta de políticas públicas e a necessária intervenção do Judiciário.
Sob a inspiração da sociologia compreensiva de Max Weber, inseparável da história, Heloísa Lara deixou seu legado em minha visão de mundo. Cruzei a ponte das minhas inquietações na realidade prática para a teoria, associadas ao empírico, ainda que seja o campo jurídico.
Nesse sentido, minha querida professora Heloísa Lara exerce um papel fundamental em minha vida e de muitos. Seu compromisso com essa temática foi inspirador para várias pessoas do campo acadêmico.
Sugestões de obras da autora:
COSTA, Heloisa Lara Campos. As Mulheres e o Poder na Amazônia. EDUA, 2005.
MOURA, Edila Ferreira et al. Zona Franca de Manaus: Os filhos da Era Eletro-eletrônica. Belém: UNAMAZ/UNICEF, 1993.
COSTA, Heloisa Lara Campos et al. Políticas Públicas, Desigualdades Sociais e Crianças no Amazonas .Belém: UNAMAZ/UNICEF, 1993.

