Por Luiz Augusto Campos (IESP-UERJ)
Ciência e Política na luta contra o racismo.
Há décadas, a Sociologia é atravessada por um debate sobre as tensões entre a pesquisa acadêmica e o engajamento militante, entre ciência e política. De um lado, se colocam aqueles que defendem uma nítida separação das duas esferas, reservando à ciência a busca distante e imparcial por conhecimento, protegida das oscilações e paixões próprias das conjunturas. Do outro, aqueles que advogam uma vocação politicamente engajada para as Ciências Sociais, na qual compromisso político seria um ingrediente indispensável à prática sociológica. Tal oposição, contudo, está longe de traduzir a contento a complexa associação dessas dimensões na vida real, o que fica particularmente evidente na obra de Carlos Hasenbalg, um dos sociólogos cientificamente mais rigorosos e politicamente relevantes da Sociologia brasileira.
Nascido na Argentina, Carlos Hasenbalg (1942-2014) se formou em Ciências Sociais, na Universidad de Buenos Aires, em 1965. Exilado político, primeiramente no Chile, ele fez parte de uma das primeiras gerações a cursar pós-graduação na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO), então dirigida por seu futuro colega de trabalho, o sociólogo e cientista político brasileiro Glaucio Ary Dillon Soares. Em 1968, Hasenbalg foi convidado a migrar para o Brasil e compor a equipe de pesquisa do Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais (CLAPCS), período em que também lecionou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. No entanto, ele permaneceu pouco tempo na instituição, sendo convidado, em 1972, a compor o quadro de professores que viria a fundar a Pós-graduação em Sociologia do antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), atual Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).
Entre 1972 e 1978, Hasenbalg dividiu suas tarefas de pesquisa e docência no Iuperj, com seu doutorado na Universidade da California, em Berkeley. Nesse período, ele já havia estabelecido estreitos laços de amizade com lideranças do movimento negro carioca, como Beatriz Nascimento (a quem dedica sua tese) e Lélia Gonzalez (com quem publica o livro Lugar de Negro). Com o interesse de estudar as desigualdades raciais no Brasil, Hasenbalg procura, nos EUA, a orientação de Robert “Bob” Blauner, um ex-operário de origem marxista e colaborador do partido Pantera Negra. Ao mesmo tempo em que escrevia em jornais e contribuía com a luta política, Blauner se dedicava a formular conceitos para entender a discriminação racial nos EUA, por uma perspectiva estruturalista. São dele algumas categorias como “colonialismo interno” e sua tipologia dos modos de alienação no trabalho, apresentadas em sua obra de 1972 intitulada Racial Oppression in America.
Em 1979, Hasenbalg defendeu sua tese de doutorado e, até hoje, uma de suas obras mais relevantes, Race Relations in Post-Abolition Brazil: The Smooth Preservation of Racial Inequalities, publicada em português no mesmo ano sob o título Discriminação e desigualdades raciais no Brasil (1979, Graal, reeditada em 2005 pela EdUFMG/Iuperj). Em seus mais de quarenta anos no Iuperj, Hasenbalg publicou alguns livros e dezenas de artigos científicos sobre os mecanismos de reprodução das desigualdades raciais no Brasil, a maioria deles em coautoria com seu amigo e colega de departamento, Nelson do Valle Silva. Ambos foram impulsionadores e ajudaram a dirigir o Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes, núcleo de referência para pesquisadoras e pesquisadores da questão racial no Brasil e no mundo, que formou toda uma geração de especialistas no tema, dentre os quais Marcia Lima, Denise Ferreira dos Santos, Lívio Sansone, Jacques D’adesky, Laura Moutinho dentre muitos outros. Dirigido por Hasenbalg entre 1986-1996, o Afro, como era conhecido, editou a revista Estudos Afro-Asiáticos, periódico acadêmico de referência nacional e internacional durante sua existência.

A principal contribuição de Hasenbalg para a Sociologia brasileira está na utilização de técnicas e dados estatísticos robustos para mensurar as desigualdades de oportunidades entre brancos, de um lado, e pretos e pardos, do outro. Suas conclusões e análises colocavam em xeque sociólogos influentes à época, tanto aqueles que negavam a existência de racismo entre os brasileiros, sobretudo os seguidores da obra de Gilberto Freyre, quanto a perspectiva teórica originada na obra de Florestan Fernandes. Ainda que esta reconhecesse a existência de preconceito racial no país, ela o considerava uma reminiscência atrasada e pré-moderna a ser superada pela modernização nacional. O trabalho de Hasenbalg não só colheu evidências substantivas da existência do racismo no Brasil, mas também de suas consequências duradouras, mesmo depois de nossa industrialização. O racismo seria, assim, operante na modernidade capitalista avançada e fundamental na estruturação de nossas desigualdades sociais.
A partir de dados demográficos, Hasenbalg comparou pioneiramente as chances de ascensão e decadência socioeconômica de brancos, pretos e pardos, chegando a importantes conclusões. Primeiro, ao comparar as chances de ascensão social de dois indivíduos com condições de classe similares, ele percebeu que os autodeclarados “brancos” têm cerca de duas vezes mais chances de ascender socialmente do que os autodeclarados “pretos” ou “pardos”. Esse dado foi importante para mostrar que as desigualdades sociais entre esses grupos não se deviam somente à classe de origem e não eram uma sobrevivência do passado. Ou seja, a raça/cor dos indivíduos é um elemento fundamental na distribuição de oportunidades no mercado de trabalho do Brasil urbano e industrial independentemente de suas classes de origem. Esse dado é até hoje considerado evidência da discriminação racial brasileira (Hasenbalg, 1977, 1979; Hasenbalg; Silva, 1988). Segundo, ele notou que os indicadores demográficos de “pretos” e “pardos” eram bastantes similares entre si. Essa conclusão foi fundamental para que o movimento negro, então em rearticulação, não apenas contasse com evidências empíricas da existência e difusão do racismo no Brasil, mas também pudesse se colocar como um movimento de maioria, representante de pretos e pardos, parte expressiva da população nacional.
A matriz apresentada abaixo, resultado de pesquisa de 2017 do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (CNPq/IESP-UERJ), ilustra esse modelo analítico. A partir da comparação das chances de mobilidade social entre brancos e não brancos (pretos e pardos) com base em três estratos (classe baixa, média e alta), é possível notar que brancos têm mais chance de ascender e permanecer em classes altas do que não brancos.

Este modelo de análise das nossas desigualdades raciais passou por inúmeras reavaliações e reparos por nomes como Sergei Soares, Ricardo Henriques, Carlos Costa Ribeiro, Rafael Osório etc. Mas suas conclusões básicas ainda não foram substantivamente desafiadas. Tais conclusões, ademais, subsidiaram a proposição e a consequente adoção de políticas focais como as ações afirmativas raciais. Para além de nossas profundas desigualdades de classe, existem desigualdades estritamente baseadas na raça/cor dos indivíduos e, portanto, não seria eficiente reduzi-las com políticas baseadas estritamente na classe.
Sendo assim, a obra de Carlos Hasenbalg não só contribuiu para denúncia do racismo no Brasil e a reorganização do movimento negro no fim dos anos 1970, como também para subsidiar, com análises científicas rigorosas, os debates públicos em torno da raça e as políticas estatais antirracistas. Trata-se, portanto, de uma reflexão que não aparta rigor metodológico e incidência política, dados demográficos e interlocução com os movimentos sociais. Essas duas dimensões do fazer sociológico eram, para ele, bases intelectuais indissociáveis do fazer acadêmico. É com rigor científico que a academia melhor contribui para a denúncia das injustiças sociais e, em decorrência disso, para a busca de soluções e políticas públicas eficazes como as ações afirmativas.
Sugestões de obras do autor:
GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de Negro. Rio de Janeiro, 2022[1982].
HASENBALG, Carlos Alfredo. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
HASENBALG, Carlos Alfredo; SILVA, Nelson Do Valle. Estrutura social, mobilidade e raça. Rio de Janeiro; São Paulo: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro; Vértice, 1988. 200 p.
HASENBALG, Carlos. “Desigualdades Raciais no Brasil”. DADOS, n. 14, 1977.
HASENBALG, Carlos; SILVA, Nelson do Valle. Origens e Destinos. Rio de Janeiro: Topboks, 2003.
HASENBALG, Carlos; SILVA, Nelson do Valle; LIMA, Marcia. Cor e Estratificação Social. Rio de Janeiro: Contracapa, 1999.

