Por Alfio Brandenburg (UFPR)
Em defesa da sociologia, dos movimentos sociais e da ecologia.
Como diz o poeta Antonio Machado “Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao caminhar”. É assim que Osvaldo vai se encontrando: ao caminhar. Osvaldo Heller da Silva nasceu em 1956, na cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul. Filho de mãe de origem alemã e pai caboclo, trabalhou desde cedo na oficina do pai que fabricava peças para veículos automotivos. Entrou no mundo do trabalho formal aos 14 anos, quando atuou como office-boy em um pequeno escritório de contabilidade. Depois disso voltou a trabalhar com o pai, como torneiro mecânico. Na adolescência vai fazer ensino médio em um colégio, de São Leopoldo/RS, onde fica como interno durante três anos. A partir de então nunca mais voltou a residir com os pais.
Em 1975 presta exame para o vestibular na área de engenharia, com pretensão de fazer engenharia eletrônica. No entanto, por ter passado em segunda opção para o curso de engenharia de minas na UFRGS, escolhe esse curso, indo morar em Porto Alegre. Para se sustentar na capital, trabalhou em várias lojas de confecção combinando assim estudo e trabalho. Em 1976 foi morar com um amigo, que o convidou para participar da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural -AGAPAN, liderada pelo agrônomo José Lutzemberg. Passa então a atuar como militante ecologista, escrevendo artigos para jornais e revistas. Em seguida foi morar na Casa do Estudante Universitário da UFRGS junto com um militante trotzkista, que o convidou para atuar em um grupo de militância política. Nesse grupo conheceu uma estudante que havia abandonado o curso de medicina para ingressar no curso de ciências sociais. Osvaldo, já bastante desanimado com o curso de engenharia que lhe parecia mais teórico que prático, por influência da amiga, decidiu fazer o mesmo e solicitou transferência da engenharia para ciências sociais. Durante todo o curso de graduação teve participação intensa no movimento estudantil, fazendo parte da direção do DCE. Enquanto estudava, também tinha necessidade de uma fonte de renda para sua sobrevivência e assim teve que trabalhar em lojas de confecções e supermercados até que conseguiu um emprego em um banco. No banco, continuou a vida de militante atuando junto à categoria dos bancários, tendo participado da greve nacional de 1980, liderada por Olívio Dutra. Com o término da greve foi demitido por justa causa, sendo posteriormente absolvido do motivo de sua demissão, mediante a defesa do advogado Tarso Genro. Por algum tempo segue engajado na militância política, com seu grupo nas periferias de Porto Alegre – RS.
Após um período de intensa militância passa a se dedicar ao curso de Ciências Sociais que concluiu em l982. Em seguida ingressa no curso de Mestrado em Sociologia Rural na UFRGS quando foi convidado pelo Professor Manoel Malheiros Tourinho para realizar uma pesquisa sobre os “burareiros” (pequenos agricultores familiares de cacau). A pesquisa resultou na dissertação de mestrado, que teve como título “Produção Familiar: proletarização a frente (o caso da cacauicultura baiana)”, defendida em 1986, sob a orientação de Anita Brumer e Manoel Malheiros Tourinho. Surgiu então a oportunidade de trabalhar no Paraná, na Secretaria da Agricultura, Departamento de Economia Rural – DERAL, (sob a coordenação de Horácio Martins de Carvalho), onde participou de pesquisas sobre o processo de modernização da agricultura, juntamente com Angela Duarte Damasceno Ferreira. Com a exoneração do Secretário da Agricultura Claus Germer, foi demitido, tendo que procurar novo emprego. Foi assim que prestou concurso na Universidade Estadual de Maringá para ocupar uma vaga de professor no Departamento de Ciências Sociais. Na UEM, além de docente, desenvolve pesquisas sobre o impacto ambiental do projeto de construção da hidrovia no Ivaí e paralelamente participa como presidente, da ADUEM – Associação de Professores da Universidade. Em 1988 surgiu a oportunidade de fazer doutorado na França, para onde partiu, a convite da Professora Rose Marie Lagrave da Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Na Ecole, durante quatro anos faz seu doutorado, e em acordo com Rose Lagrave, que viria a ser sua orientadora, realiza sua pesquisa sobre Sindicalismo de Trabalhadores Rurais. Assim elabora e defende a tese “Communistes et Anticomuunistes: l’enjeu du syndicalisme agricole dans l’Etat du Paraná de 1945 a la fin des annees 70” que mais tarde viria a ser publicado no livro que se tornou referência na área de sindicalismo: A Foice e a Cruz.
Ao retornar ao Paraná, em 1994 presta concurso na Universidade Federal do Paraná/ Departamento de Ciências Sociais, para o ocupar uma vaga de professor na área de sociologia rural. Aprovado, além de outras disciplinas na área de teoria sociológica, ministrou a disciplina de sociologia rural no curso de graduação ciências sociais e outros cursos. Participa, desde 1996, como docente e pesquisador no Curso de Pós-Graduação em Sociologia e atua no Centro de Estudos Rurais e Ambientais do PR – CERU-PR, vinculado à UFPR, onde desenvolveu diversas pesquisas em conjunto com colegas. Orientou diversas dissertações e teses, e coordenou eventos como “I Jornada Questão Agrária e Desenvolvimento”, “ IV Encontro da Rede de Estudos Rurais”. Como docente e pesquisador, influenciado pelo pensamento marxista, sempre atuou em temas que teve como centralidade camponeses, agricultores familiares e povos tradicionais. Da sua trajetória herdou a preocupação com meio ambiente e ecologia, fazendo uma sociologia que combina questões agrárias e ambientais. Em 2005 volta à Paris para realizar Pós-doutorado, agora na Universidade Paris X- Laboratoire Dynamiques Sociales et Recomposition des Espaces/ LADYS, para aprofundar seus estudos na área de campesinato e agricultura familiar, em diálogo com Jean Paul Bilaud, Marcel Jolivet, Hugues Lamarche e outros pesquisadores do laboratório. Em 2011 passa a atuar como educador voluntário na Escola Latinoamericana de Agroecologia – Elaa, localizada no Assentamento do Contestado no Paraná.
Embora sua trajetória de vida profissional seja marcada por atividades que vão desde a atuação como trabalhador de fábrica, negócios, prestação de serviços e militância, sua caminhada o leva a se encontrar como professor universitário e pesquisador em Ciências Sociais. Como docente, dotado de uma personalidade prestativa e afável, revelou-se como excelente professor, sempre muito procurado por alunos. Como pesquisador, produzirá trabalhos de relevância para a sociologia em especial para a sociologia rural, contribuindo, com suas obras, para projetar a sociologia produzida na UFPR no cenário nacional.
Sugestões de obras do autor:
SILVA, Osvaldo Heller da.A FOICE E A CRUZ: Comunistas e Católicos na História do Sindicalismo dos Trabalhadores Rurais do Paraná . Curitiba: Rosa de Bassi, 2006. 424p.
SILVA, Osvaldo Heller da. ALGUNS COMENTARIOS SOBRE O DESTINO DO CAMPESINATO EM MARX. REVISTA DE ECONOMIA E SOCIOLOGIA RURAL, v. 24, n.1, p. 101-146, 1986.
SILVA, Osvaldo Heller da; Menim, Emanuel . Guerrilha de Porecatu: a resistência camponesa na colonização do Norte do Paraná. In: MARIN, Joel Orlando Bevilaqua Marin; NEVES, Delma Pesssanha. (Org.). CAMPESINATO E MARCHA PARA OESTE. 1ed.Santa Maria: UFSM, 2013, v. , p. 346-373.
SILVA, Osvaldo Heller da. 1. Agricultura familiar: diversidade e adaptabilidade.. Revista de Sociologia e Política, Curitiba PR, v. 12, p. 161-167, 1999.
SILVA, Osvaldo Heller da; FLORENTINO, Laure Granchamp . Réforme agraire : politique sociale ou politique de développement ?. In: Jean François Deluchey; Stéphane Monclaire. (Org.). Gouverner l’intégration: les politiques nationale et internationale du Brésil de Lula. Paris: editions Pepper, 2006, v. , p. 1-33.
SILVA, Osvaldo Heller da. A gênese do sindicalismo rural no Paraná: reflexões sobre as carreiras de dirigentes. In: Bernardo Fernandes; Leonilde Medeiros; Maria Paulilo. (Org.). Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas (Coleção História Social do Campesinato no Brasil). 1ed.SP: Unesp, 2009, v. I, p. 93-116.

