Sirlei Aparecida Silveira

Por Harlon Romariz Rabelo Santos (SOCIP-UFMT)

Sirlei Aparecida Silveira, nasceu em Itapagipe-MG, Triângulo mineiro, em 1956. Licenciada em Pedagogia e Estudos Sociais, realizou especialização em História e Historiografia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mestrado e doutorado em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atuou no ensino fundamental e no médio e, também, na área tecno-científica em instituições públicas e privadas. Integra desde 1992 o quadro docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), lotada no Departamento de Sociologia e Ciência Política (SOCIP). Sua produção transita na interseção entre história e ciências sociais, com atenção à cultura, ao pensamento social brasileiro e latino-americano, estudos decoloniais, e sobre territórios. É autora dos livros o “Brasil de Mario de Andrade” e “Em Busca do País do Ouro: sonhos e itinerários”, de artigos em periódicos de circulação nacional e internacional além de capítulos de livros.

Nascida no seio de uma família rural mineira, com pouca escolarização, aos sete anos de idade iniciou o seu processo de formação escolar em uma escola multisseriada, na fazenda onde seus pais residiam. Aos nove anos de idade mudou-se para o oeste do estado de São Paulo, vivendo em cinco cidades diferentes até os seus 18 anos de idade, quando mudou-se para Mato Grosso, em 1974.

Naquele ano, seguindo o fluxo das correntes migratórias em direção à Amazônia, chegou na cidade Cáceres, no extremo oeste de Mato Grosso, divisa com a Bolívia. No mesmo ano, e naquela cidade iniciou-se na carreira do magistério, ministrando aulas de história e geografia no então ensino de 1º e 2º graus em escolas públicas, ainda sem formação em nível superior, dada a carência de professores na região. O ingresso no Curso de Licenciatura em Estudos Sociais, na atual Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, ministrado durante o período de férias escolares nos meses de janeiro, fevereiro e julho, consistiu-se na alternativa possível para sua primeira qualificação em nível superior, direcionada à permanência na carreira docente. Situação emblemática das inúmeras carências existentes nos rincões deste Brasil, especialmente no campo educacional, contornadas pelas políticas públicas implementadas pelos governos locais, em parceria com os órgãos federais, especialmente com o Ministério da Educação e Cultura, à época. No ano 1977, transferiu-se para Cuiabá, onde deu continuidade às suas atividades docentes, e complementou sua formação superior.

Em 1979, paralelamente às atividades de ensino, Sirlei integrou o grupo de implantação da “Casa da Cultura”, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Educação e Cultura, sob a direção do historiador Carlos Alberto Rosa e da teatróloga e cineasta Glória Albuês. Suas atividades iniciais neste grupo de trabalho consistiram em sistematizar um acervo de reproduções iconográficas e fotográficas sobre as transformações ocorridas no sítio urbano de Cuiabá, do século XVIII até o final dos anos 1970. Esta atividade a levou aos estudos teóricos e práticos sobre memória, especialmente para as discussões sobre memória e documentação visual, fotografia, patrimônio histórico, artístico e cultural, além dos estudos mais gerais sobre a história e a cultura regional mato-grossense. Impulsionada pelo novo desafio, ingressou no recém-criado curso de graduação em História, na Universidade Federal de Mato Grosso, e posteriormente no curso lato sensu História e Historiografia de Mato Grosso, na mesma universidade, ministrado em convênio com o Departamento de História, da Universidade de Campinas (UNICAMP).

Entre os anos de 1980 e 1983, a professora Sirlei, como é conhecida, coordenou duas outras atividades singulares na redefinição de sua trajetória intelectual e profissional. A primeira, foi a elaboração do “Primeiro inventário do patrimônio arquitetônico do centro histórico de Cuiabá”, sob a orientação da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), objetivando o tombamento dos bens patrimoniais relevantes existentes no local. Esta atividade, além dos desafios inerentes a apropriação de conhecimento teórico e prático relacionado a identificação e a classificação do patrimônio arquitetônico local, com relevância histórica, inseriu a professora no debate nacional sobre a classificação, a conservação, a proteção, a restauração, a revitalização e a difusão dos bens de valor cultural e natural existentes no País. E, especialmente, proporcionou o seu primeiro encontro com as formulações do modernista Mario de Andrade acerca dos problemas relacionados à construção da identidade nacional brasileira, expressas no anteprojeto da Lei do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, formulando em 1937, parte de seu objeto de dissertação de mestrado defendida na PUC/SP, sob a orientação de Renato Ortiz e Carmen Junqueira, alguns anos depois.

A segunda atividade relevante desenvolvida por Sirlei, na Casa da Cultura, consistiu na formulação e implementação do subprojeto “Ação Cultural”, vinculado ao Projeto Interação entre a Educação Básica e os Diferentes Contextos Culturais Existentes no País, desenvolvido sobre a supervisão da recém-criada Fundação Nacional Pró-Memória, da Secretaria de Cultura/MEC, com o objetivo de promover a interação entre escola e o contexto cultural em que se inseria. A atuação neste projeto foi o impulso decisivo para a sua migração das atividades profissionais vinculadas ao campo da história para o campo das ciências sociais. Naquele início dos anos de 1980, ressurgiam-se as lutas da sociedade civil pela democratização da sociedade brasileira em todas as suas instâncias de poder. Nas esferas da cultura e da educação não era diferente, ganhava-se ênfase as correntes de pensamento e ação política defensoras da “participação da comunidade em todo o processo educacional, estimulando a incorporação das referências culturais dos estudantes à vida escolar”. Ganhava-se força as lutas por uma educação popular e participativa, contextualizada nas práticas sociais concretas, vividas pelos sujeitos sociais em suas comunidades próximas, em oposição a um projeto educacional “bancário e elitista”, que reificava as desigualdades culturais e econômicas, Brasil afora. As ideias de Paulo Freire e outros educadores populares consistiam na orientação paradigmática na definição das ações e práticas desenvolvidas pelo projeto, sob a orientação direta do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão nos círculos de estudos teóricos-metodológicos sobre educação e cultura, com destaque para as pesquisas participante com as comunidades locais. As descobertas e dúvidas conceituais e práticas vivenciadas no transcorrer desta experiência, e o estímulo do saudoso Carlos Brandão, levaram a professora Sirlei à Pós-Graduação em Ciências Sociais, na PUC/SP, em 1985.

No mestrado, na PUC-SP, Sirlei teve o privilégio de ser aluna de Florestan Fernandes, Carmen Junqueira, Élide Rugai Bastos, Maurício Tragtenberg, Octávio Ianni, Renato Ortiz, além de conviver com colegas estudantes de todas as regiões brasileiras. A efervescência intelectual e política na PUC e na cidade de São Paulo, naqueles anos de 1980, possibilitou a sua inscrição no ethos científico e nas práticas acadêmicas nas três áreas constitutivas das Ciências Sociais e, também, nas discussões sociopolíticas e culturais sobre o Brasil. Sua pesquisa de dissertação de mestrado, financiada com recursos da Fundação Ford, por meio do Concurso de Dissertações e Teses, promovido pela ANPOCS, e intitulada “Nas Trilhas da Brasilidade: Mário de Andrade e o projeto de construção da nação brasileira”, a sintonizou com o debate sobre os dilemas vivenciados pelos intelectuais modernistas diante a irresolução da questão nacional no Brasil nos anos 20, 30 e 40, do século XX, e a construção da identidade nacional, a partir das noções de cultura erudita e popular, dilemas do passado e do presente.

Ainda, dentre as experiências vivenciadas por Sirlei Silveira no percurso de sua formação intelectual e acadêmica no mestrado em Ciências Sociais, na PUC, é importante registrar a participação no grupo de pesquisa sobre a “Produção da Telenovela no Brasil”. Esta pesquisa, empírica e documental, realizada nos estúdios de produção da Globo e da extinta Rede Manchete, no Rio de Janeiro, por José Mario Ortiz Ramos, Maria Celeste Mira, Maria Lúcia Bueno, Silvia Helena Borelli, sob a coordenação de Renato Ortiz, entre os anos de 1986-1987, conferiu-lhe conhecimento no campo da comunicação e da cultura de massa, e sua difusão na sociedade brasileira quer pelo estudo das referências teóricas sobre a temática, quer pelas pesquisas empíricas realizadas nas emissoras de televisão, produtoras de telenovela, somadas à realização de pesquisas documentais nos acervos do Jornal “O Estado de S. Paulo”, e da extinta FUNARTE-RJ.

Em 1992, ingressou na carreira do magistério superior, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), lotada no Departamento de Sociologia e Ciência Política, do Instituto de Ciências Humanas e Sociais, onde permanece em atividade até o presente momento. Nestes mais de 30 anos de trabalho na UFMT, ministrou aulas da área de Sociologia e de Ciência Política para diversos cursos de graduação e pós-graduação lato e stricto sensu, ofertados na sede da instituição e no interior de Mato Grosso. Contribuiu com a criação e implantação de cursos de graduação, especialização e mestrado na área de Ciências Sociais e Humanidades, na UFMT. Foi, também, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem (PPGEL/UFMT), e, integrou o grupo de trabalho que elaborou o Projeto do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS/UFMT), implantado em 2015.

O Brasil de Mário de Andrade - Sirlei Silveira - Traça Livraria e Sebo

Enquanto pesquisadora, na UFMT, integrou equipes multidisciplinares de pesquisa e, dentre essas, faz-se menção especial à sua participação no Projeto de Pesquisa “Mineração de Ouro, Saúde e Ambiente na Amazônia”, coordenado pelo Instituto de Saúde Coletiva/UFMT, financiado pelo IDRC/Canadá, via UNAMAZ, realizado em conjunto com pesquisadores da Universidade dos Andes – Bogotá – Colômbia, e da Universidade Central da Venezuela – Caracas, entre os anos de 1994 e1995. A sua participação nesta pesquisa alterou, inicialmente, o seu foco e interesse investigativo e a perspectiva sobre a cartografia brasileira. Voltou-se para os estudos teóricos e empíricos sobre as questões existentes na Amazônia, com a intensificação do processo de ocupação territorial, pela migração em massa a partir dos anos de 1970. Dedicou-se em compreender, especialmente, os problemas causados pela garimpagem de ouro, a partir do fenômeno de Serra Pelada, com ênfase nas condições de vida e trabalho dos chamados garimpeiros.

As visitas que realizou em áreas de garimpo, no norte de Mato Grosso, as entrevistas com trabalhadores egressos desses lugares, a revisão dos estudos já realizados sobre este fenômeno em causa na região, sobretudo por pesquisadores do Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA) da Universidade Federal do Pará e as reuniões de estudos e debates do problema em causa com os integrantes da pesquisa no Brasil e na Colômbia, levaram-na a um outro problema de pesquisa, ou seja,  a investigação sobre o lugar do ouro no imaginário social e sua força motriz nas correntes migratórias em direção às terras supostamente dotadas de “riquezas incalculáveis”. O aprofundamento da compreensão deste fenômeno ocorreu no curso de doutorado, no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, da PUC/SP, com o desenvolvimento do projeto tese sobre o lugar do ouro no imaginário ocidental, e os vínculos desse ideário com a conquista sul-americana. Este estudo sobre o mito do Eldorado americano, a partir da releitura de fontes bibliográficas e documentais no campo da antropologia, sociologia, literatura, filosofia e história social, sob a orientação da antropóloga Carmen Junqueira, e mais tarde publicado sob título Em Busca do País do Ouro: sonhos e itinerários, reposicionou a pesquisadora no campo dos estudos decoloniais latino-americanos, com participação na organização e no conselho editorial do “Seminário Internacional sobre a América Latina”, SIALAT, promovido bianualmente pelo NAEA, na Universidade Federal do Pará, desde 2015.

SUGESTÕES DE OBRA DA  AUTORA:

SILVEIRA, Sirlei. América: projeção da geografia fantástica das Índias. In.: CASTRO, Edna; PINTO Renan Freitas. Decolonialidade e Sociologia na América Latina. Belém: NAEA: UFPA, 2018

SILVEIRA, Sirlei. Em busca do país do ouro: sonhos e itinerários. Cuiabá:Carlini & Caniato; EduUFMT, 2009.

Sirlei Silveira. A brasilidade Marioandradina. XXVII Congreso de la Asociación Latinoamericana de Sociología. VIII Jornadas de Sociología de la Universidad de Buenos Aires. Asociación Latinoamericana de Sociología, Buenos Aires, 2009.

SILVEIRA, Sirlei Aparecida. El Dorado: el mito de la conquista sudamericana. In:  RODRIGUEZ, Alain Basail; BENÍTEZ, Gisela Landázuri;

BAEZA, Manuel Antonio (coordinadores). Imaginarios sociales latinoamericanos construcción histórica y cultural. Chiapas-México:  Universidad de Ciencias y Artes de Chiapas; México-Distrito Federal: Instituto Politécnico Nacional. 2007.

SILVEIRA, Sirlei. A Amazônia de Euclides da Cunha: paraíso versus inferno. VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais – “A Questão do Novo Milênio”. Coimbra-Portugal, set./2004.Disponível em: http://www.ces.uc.pt/lab2004/inscrição/pdfs/painel30/sirleisilveirapdf.

SILVEIRA, Sirlei. O Brasil de Mário de Andrade. Campo Grande-MS: Editora UFMS, 1999. Coleção Fontes Novas.