Maria Luzia Miranda Álvares

Por Edna Castro (SBS/UFPA)

Uma vida entre o cinema, a sociologia e a Amazônia

Maria Luzia Miranda Álvares nasceu em Abaetetuba, em 1940, no seio de uma família tradicionalmente inserida nos circuitos culturais da região. Desde a infância, esteve em contato com manifestações artísticas, especialmente o cinema — ainda uma novidade rara nas cidades do interior, onde faltava energia elétrica e as exibições ocorriam em espaços improvisados, muitas vezes ao ar livre. Nesse ambiente, desenvolveu o gosto pela cultura e pela arte cinematográfica, que mais tarde se tornariam dimensões centrais de sua vida intelectual e afetiva.

Aos doze anos, mudou-se para Belém com o objetivo de cursar o ensino secundário em um colégio confessional católico, em regime de internato. Na capital, ampliou seu contato com o cinema, frequentando o cineclube Cine Bandeirante, que funcionava na garagem de Pedro Veriano — à época seu namorado, posteriormente médico e reconhecido crítico cinematográfico. Casou-se aos dezoito anos e com ele formou uma família de quatro filhas iniciando mais tarde sua formação universitária, optando pela área das Ciências Sociais, atraída pelo pensamento sociológico e seu potencial crítico.

Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1977. Em seguida, concluiu o Mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo Programa de Pós-Graduação do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA) em 1990, e obteve o Doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) em 2004. Sua tese, intitulada Mulheres na Competição Eleitoral: Seleção de Candidaturas e o Padrão de Carreira Política no Brasil, definiu a linha temática que marcaria sua trajetória acadêmica – os estudos sobre mulher, política e Amazônia -, desdobrando-se em pesquisas sobre direitos das mulheres, trabalho e saúde feminina, poder, cidadania e acesso à justiça social.

Em 1978, ingressou como docente no Departamento de Ciências Sociopolíticas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/UFPA). Sua dissertação de mestrado, que analisou o papel das mulheres na história política do Pará entre a Primeira e a Segunda República, foi publicada sob o título Saias, Laços e Ligas: Construindo Imagens & Lutas. Um estudo sobre a participação política e partidária das mulheres paraenses (1910–1937), obra que se tornou referência na área dos estudos de gênero e história política regional.

Paralelamente à docência e à pesquisa, construiu uma reconhecida trajetória como crítica de cinema mantendo, por décadas, uma coluna no jornal O Liberal — o de maior circulação no Pará — dedicada à análise filmográfica de produções contemporâneas e clássicas do cinema mundial. Nessa atividade, aliou rigor sociológico e sensibilidade estética, tornando-se uma das raras vozes femininas a escrever sobre cultura e cinema na imprensa paraense nas décadas de 1970 e 1980. Suas crônicas exerceram importante papel informativo e crítico, introduzindo o público regional a debates nacionais e internacionais sobre diretores, festivais e tendências estéticas. Parte significativa dessa produção foi reunida, em 2023, na coleção Memórias da Cinefilia Amazônida, organizada por Bene Martins e Marco Antônio Moreira no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA.

A trajetória de Maria Luzia Álvares consolidou-se em dois campos de grande relevância acadêmica: os estudos de gênero e o pensamento crítico sobre arte e política. Sua obra constitui um olhar interdisciplinar capaz de articular sociologia, ciência política, arte e cinema, criando pontes teóricas e metodológicas entre cultura e sociedade. A análise sociopolítica dos personagens femininos nas filmografias nacional e internacional serviu como instrumento de reflexão sobre as estruturas patriarcais e os modos de representação das mulheres no imaginário social.

Em suas pesquisas sobre mulheres, gênero e poder, destacou a persistente invisibilidade feminina em contextos políticos e sociais, evidenciando a subalternidade a que as mulheres foram historicamente relegadas nos espaços públicos, especialmente em Belém, nas primeiras décadas do século XX. Essa reflexão perpassa toda sua produção intelectual e sustenta sua contribuição pioneira à compreensão do papel da mulher na política paraense e brasileira.

No âmbito institucional, desenvolveu um trabalho de grande relevância para o fortalecimento da UFPA e, em particular, do curso de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH. Em 1994, fundou, com outras pesquisadoras, o Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero (GEPEM/UFPA), cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, que coordena desde então. O grupo consolidou-se como um espaço interdisciplinar de formação e produção científica, reunindo dezenas de pesquisadoras e pesquisadores de diferentes áreas e promovendo seminários nacionais regulares.

Durante a pandemia de 2020, o GEPEM criou e executou o Curso de Especialização em Teorias de Gênero e Feminismos na América Latina (2021–2022), em formato on-line. As monografias resultantes deram origem a dossiês temáticos na revista Gênero na Amazônia, periódico científico que Maria Luzia coordena e edita, e que se tornou referência nos debates sobre gênero e estudos feministas na região amazônica.

É também coordenadora da linha de pesquisa “Mulher e Participação Política” do GEPEM e integra o Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Violência na Amazônia (NEIVA/UFPA). Foi membro da diretoria da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA) e coordenou, por mais de duas décadas (1996–2022), a linha de pesquisa “Feminismo e Política” da REDOR – Rede Feminista de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Gênero – Norte e Nordeste.

Mesmo após sua aposentadoria, manteve-se como Professora Voluntária da UFPA, ministrando disciplinas e orientando estudantes de iniciação científica no IFCH. Entre 2012 e 2014, coordenou, ao lado de José Eustáquio Alves (ENCE/IBGE), a Área Temática “Gênero, Democracia e Políticas Públicas” da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).

Além de suas atividades de pesquisa e docência, continua à frente da Revista Gênero na Amazônia, periódico da UFPA, publicando e organizando dossiês que consolidam o campo dos estudos de gênero. É autora e organizadora de diversos livros e coletâneas, com publicações em periódicos nacionais e internacionais. Seus textos de crítica cinematográfica, escritos entre 1972 e 2015, estão preservados no setor de periódicos da Fundação Cultural do Pará, constituindo importante acervo para a memória da crítica cultural amazônica.

Atualmente, coordena estudos e seminários voltados à cultura do feminismo, abordando temas como empoderamento feminino, colonialidade, teorias de gênero, interseccionalidade e representação política das mulheres, além da análise das políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica no Pará. Sua pesquisa recente examina a execução dos recursos públicos destinados à proteção das mulheres, contribuindo para o debate sobre a efetividade das políticas de gênero no contexto amazônico.

A atuação de Maria Luzia Álvares é marcada, também, pela ampla cooperação institucional. Permanece vinculada ao Observatório de Monitoramento da Lei Maria da Penha (OBSERVE), coordenando as pesquisas na Região Norte, em consórcio nacional liderado pelo NEIM/UFBA e financiado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM/Presidência da República). É consultora ad hoc do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça da mesma Secretaria, e foi coordenadora da REDOR entre 2009 e 2011.

Sua experiência consolida-se na interface entre Sociologia e Ciência Política, com ênfase nos ciclos republicanos paraenses, participação feminina na política e relações de gênero e poder.

A dimensão cinematográfica de sua trajetória é igualmente relevante. Criou o Cine-Gênero, projeto pedagógico vinculado ao GEPEM, que utiliza o cinema documental e ficcional como ferramenta de reflexão acadêmica sobre temas como identidade, feminismo e desigualdade de gênero. Por meio dessa iniciativa, filmes como Anjos Rebeldes, Flor do Deserto e O Diabo Veste Prada, entre muitos outros, tornaram-se objetos de análise e debate sociológico. Ao trazer as telas do cinema e as páginas de sua coluna Panorama à sala de aula, estabeleceu um diálogo entre arte, teoria e realidade social, transformando o cinema em linguagem de mediação entre a sociologia e a ciência política.

Em síntese, a trajetória de Maria Luzia Miranda Álvares articula, de modo singular, vida acadêmica, militância intelectual e compromisso ético com a cultura e a justiça social. Sua produção, que atravessa mais de cinco décadas, representa uma contribuição decisiva para o pensamento social e político sobre gênero na Amazônia e no Brasil, unindo arte, crítica e ciência em um mesmo projeto de emancipação e reflexão.

Sugestões de obras da autora:

Álvares, Maria Luzia Miranda & D’Incao, Maria Ângela – A Mulher Existe? uma Contribuição ao Estudo da Mulher e de Gênero. Belém, Gepem,1995.

Saias, Laços e Ligas: construindo imagens & lutas. Um estudo sobre a participação política e partidária das mulheres paraenses (1910–1937), Belém, Editora Paka-Tatu, 2020.

Mulheres na Competição Eleitoral: seleção de candidaturas e o padrão de carreira política no Brasil, Belém, Editora Paka-Tatu, 2025.