Regina Novaes

Por Renata Menezes (Museu Nacional, PPGAS-UFRJ)
e Eliane Ribeiro (UNIRIO)

A trajetória de Regina Novaes nas Ciências Sociais brasileiras exemplifica a potência de uma carreira construída na fronteira entre a produção de conhecimento e a intervenção pública. Sua atuação trouxe contribuições significativas, notadamente quanto a estudos rurais, religião, política, movimentos sociais e juventude.

Paulista de São Carlos, Regina nasceu em 1950, em uma família de classe média católica. Estudou em colégio de freiras, onde participou de grupos de estudo de cunho humanista, no contexto do catolicismo transmutado pelo Concílio Vaticano II. A figura de seu irmão mais velho, estudante na Escola Politécnica da USP e militante político, também marcou sua aproximação às questões sociais. Durante o ensino médio, enquanto concluía pela manhã o Curso Normal com as freiras, cursava à noite o Clássico em colégio público, o que lhe possibilitou, em 1969, o ingresso na graduação em Ciências Sociais, em Araraquara (SP).

Porém, a efervescência política do período da ditadura, que envolveu tanto a ela como a seus familiares, provocou mudanças sucessivas. Em 1971, com seu companheiro José Roberto Novaes, transferiu-se para o Rio de Janeiro, a fim de concluir a graduação no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.  A troca de cidade e de universidade deslocou seu interesse da Ciência Política e da Sociologia para a Antropologia, graças à influência de seus jovens professores, como Yvonne Maggie, Neide Esterci e, principalmente, Gilberto Velho.

Após o assassinato de seu irmão Lauriberto Reyes (Lauri) pelo regime militar brasileiro, em 1972, acompanhou José Roberto Novaes ao Chile de Salvador Allende, com a ideia de continuar os estudos por lá.  Mas o golpe militar chileno de 1973 a trouxe de volta ao Rio de Janeiro, para concluir a graduação no IFCS/UFRJ, e ingressar no mestrado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, na turma de 1974.

No Museu, a intenção era concentrar-se na área de Antropologia Urbana e pesquisar as romarias a Aparecida do Norte, sob a orientação de Gilberto Velho. Mas houve inflexões no caminho: interessada em experimentar o trabalho de campo, ela soube do recrutamento de estudantes para compor a equipe de um dos projetos sobre o campesinato do Nordeste, coordenados por Moacir Palmeira e Lygia Sigaud, e incorporou-se ao grupo.  Na primeira viagem de campo a Pernambuco, entrou em contato com uma nova realidade: trabalhadores e trabalhadoras rurais que, organizados em sindicatos, mesmo sob intensa repressão política, seguiam lutando por melhores condições de trabalho e de vida. Em campo, interessou-se pelas relações entre religião e política de trabalhadores pentecostais em um município do agreste, o que se tornou o tema de mestrado, orientado por Lygia Sigaud (1979).

Sua dissertação, Os Escolhidos de Deus, é um estudo pioneiro. Nos anos 1970, o pentecostalismo ainda era demograficamente reduzido e a mudança comportamental produzida pela conversão, com a apartação das “coisas do mundo”, era entendida como sinônimo de “conservadorismo” e “alienação”. Ao encontrar em campo lideranças pentecostais, na linha de frente da luta por direitos, mobilizadas a partir da dimensão profética de sua fé, a pesquisadora foi capaz de produzir a dupla relativização, das interpretações sobre religião e das interpretações sobre política. Com um estilo etnográfico adquirido em seu coletivo de pesquisa – atento às formas de autoapresentação, às categorias êmicas e às modalidades de relacionamento privilegiadas pelos próprios interlocutores –, Regina registrou como a religião, na forma de ideologia e visão de mundo, encarnava-se no cotidiano do grupo, articulando representações e práticas. Do esforço analítico, resultaram visões menos monolíticas e substantivadas, isto é, mais relacionais e posicionais, do mundo social: o grupo de trabalhadores rurais ligados aos sindicatos e à luta mostrava-se diverso internamente, um campesinato diferenciado e não homogêneo, do qual os crentes faziam parte. E os pentecostais se revelam com mais camadas do que as interpretações anteriores permitiam compreender.

Para se aproximar dos pentecostais, Regina contou com a colaboração de Jether Ramalho, seu professor do IFCS/UFRJ e figura ativa no campo protestante. Após a defesa da dissertação, ela agregou aos aprendizados do Museu Nacional aqueles adquiridos no Iser – Instituto de Estudos da Religião.  Organização não-governamental, fundada em 1970, por protestantes progressistas dissidentes de suas igrejas, o Iser considera a religião fundamental na compreensão da sociedade brasileira e estratégica na busca por justiça social e pela ampliação de direitos. Ali, Regina entrou em contato com os antropólogos Rubem César Fernandes e Pierre Sanchis, que marcaram suas interpretações do campo religioso brasileiro. Nas décadas seguintes, ela manteve seus vínculos com o Iser, ocupando diversas posições, como as de presidente, secretária-executiva adjunta, pesquisadora e editora do importante periódico Religião & Sociedade (1995-2005). Desde 2020, ela atua como coordenadora acadêmica de pesquisas da instituição.

Em seu doutorado em Ciências Humanas (Antropologia Social), defendido pela Universidade de São Paulo (1989), sob a orientação de Ruth Cardoso, a pesquisadora voltou à questão dos movimentos rurais e religião. Porém, desta vez, focalizando as lutas camponesas na Paraíba, onde o protagonismo nas frentes de mobilização era das comunidades eclesiais de base. Isso lhe permitiu abordar as formas específicas de articulação entre religião e política do Catolicismo progressista, bem como suas formas de combinar memória, história e projeto utópico.

Paralelamente a suas pesquisas acadêmicas, a proximidade com o mundo rural e seus agentes levou-a à assessoria a movimentos sindicais e sociais, em atividades de formação, assembleias, greves, congressos de trabalhadores, exercitando as habilidades de mediação e de tradução de linguagens entre os diferentes grupos envolvidos.

Além disso, a cientista social foi e segue sendo professora:  lecionou na PUC-RJ (1974-1977) e na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em Campina Grande, ajudando a implantar o Programa de Pós-Graduação em Sociologia Rural (1977-1987). Retornou ao IFCS/UFRJ em 1988, como professora, atuando no Departamento de Antropologia Cultural e no Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia, onde orientou estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado. Aposentando-se da UFRJ em 2005, tem atuado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO): como pesquisadora e professora visitante, entre 2015 e 2020 e, desde 2021, como Pesquisadora Visitante Emérita (FAPERJ) e Membro do Comitê Científico.

Durante a orientação de Ludmila Catela, cujo mestrado foi defendido em 1994 no PPGSA/UFRJ, a temática da juventude anunciou-se como uma nova área de expertise. Acompanhando a pesquisa da discente, que comparava a atuação política de jovens mórmons na Argentina e no Brasil,  Regina reconheceu que já estava inserida no universo das questões juvenis. A “descoberta” deu início a um engajamento que se aprofundaria nas décadas seguintes, marcado pela compreensão da juventude como experiência social plural e atravessada por desigualdades, posição decisiva para romper visões estigmatizantes sobre os jovens e reconhecê-los como sujeito de direitos.

Integrante do Projeto Juventude do Instituto Cidadania, em 2004, Regina coordenou o primeiro diagnóstico nacional  sobre a condição juvenil — Perfil da Juventude Brasileira — com survey de grande amplitude e escuta social junto a dezenas de movimentos juvenis. O estudo, entregue ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais do que oferecer dados, inscreveu a juventude como problema público de alta densidade, demandando prioridade na ação estatal. E forneceu suporte fundamental à institucionalização de políticas públicas para o segmento.

De Corpo e Alma – Catolicismo, Classes Sociais e Conflitos no Campo – Memov

A partir dessa experiência, Regina foi convidada a assumir os cargos de Secretária Nacional Adjunta da Juventude e de Presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), no período entre 2005 e 2007. Na consolidação do Conjuve, contribui para incorporar ao debate e às instâncias decisórias sujeitos historicamente excluídos das agendas públicas — juventude negra, coletivos feministas, juventudes LGBTQIA+, jovens de diferentes tradições religiosas, movimentos culturais periféricos; jovens com deficiência entre outros. Destaca-se ainda sua participação na criação de políticas como o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem), o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013) e o Programa Estação Juventude.

Ao sair da gestão pública, Regina manteve a centralidade da pesquisa na qualificação das políticas de juventude, coordenando estudos como Juventude Sul-Americana (Ibase/IDRC) e Agenda Juventude Brasil: leituras sobre uma década de mudanças (2013 – SNJ), com interpretações críticas sobre as mutações sociais, políticas e culturais vividas pela juventude brasileira. Em 2022, foi convidada a colaborar com o Grupo Técnico de Juventude da Comissão de Transição Governamental para o terceiro mandato do presidente Lula. Em 2024, assume papel de destaque no levantamento que subsidia a elaboração do primeiro Plano Nacional de Juventude, a ser encaminhado ao Congresso Nacional em 2025, em parceria com a Secretaria Nacional de Juventude e a UNIRIO.

Foi ainda Secretária Geral da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e consultora da Unesco e do PNUD/Nações Unidas.

Ao longo dos anos, Regina Novaes mostrou-se capaz de conjugar, com destreza peculiar,  inserções variadas, por vezes simultâneas, em instituições acadêmicas, organizações não-governamentais, movimentos sociais, grupos religiosos, associações científicas e gestão pública. Isso sem renunciar à reflexão crítica, matizada pelo olhar relativizador e compreensivo.

Sugestões de obras da autora:

NOVAES, Regina. Os escolhidos de Deus. Pentecostais, Trabalhadores e Cidadania. Cadernos do ISER, v. 19, Marco Zero, Rio de Janeiro, 1985.

NOVAES, Regina. De corpo e alma: catolicismo, classes sociais e conflitos no campo. Rio de Janeiro: Graphia, 1997.

NOVAES, Regina; VANNUCHI, Paulo (org). Juventude e sociedade. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

NOVAES, Regina; PINHEIRO, Diógenes; RIBEIRO, Eliane; VENTURI, Gustavo (Orgs.). Agenda Juventude Brasil: leituras sobre uma década de mudanças. Rio de Janeiro: UNIRIO, 2016.

NOVAES, Regina. Jovens de axé e jovens católicos: notas sobre disputas, escolhas, tensões e confluências antirracistas. In: Teixeira, F; Menezes, R. (Org.). Antropologia da Religião: autores e temas. Rio de Janeiro: Vozes, 2023, p. 185-203.