Por Maria Patrícia Lopes Goldfarb (UFPB)
Os acordes da Cultura Popular
O professor Marcos Ayala nasceu em Araçatuba, cidade do interior de São Paulo, situada no trajeto da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ligava Bauru (SP) a Corumbá, no estado de Mato Grosso (hoje, do Sul), e divisa com a Bolívia. Ao mudar-se para a capital do estado, passou a pensar a respeito de determinadas condições sociais e políticas do país, na ocasião do curso “ginasial” (correspondente aos últimos anos do atual ensino fundamental), questões que se tornaram mais enfáticas durante os anos do colegial (atual ensino médio).
Sua formação escolar foi marcada pelo contexto da ditadura militar no Brasil, bem como das formas de resistências desenvolvidas pelo movimento estudantil. Viveu, na graduação até parte do mestrado, sob o regime ditatorial, que se tornou ainda mais duro com o AI-5 e o Decreto-Lei 477, promulgado em fevereiro de 1969, destinado aos estudantes, professores e funcionários de estabelecimentos de ensino; contexto social e político que o instigou a refletir e problematizar questões sociais e políticas brasileiras. O assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, aguçou ainda mais sua percepção acerca da tortura, passando a contribuir com líderes religiosos no ato ecumênico que denunciava este contexto de violência e o regime de exceção.
Ainda neste período, passou a ter contato com as artes, como integrante do grupo de teatro chamado “Grupo Cordão”, que tinha feição de um teatro de resistência política: chamado teatro de rua, encenado por coletivos populares em igrejas e galpões de antigas fábricas, de forma gratuita. A vivência escolar e as experiências artísticas mostraram a importância fundamental da solidariedade nas relações sociais, bem como o trabalho como atividade que pode (e deve) ter uma conotação coletiva.
A convivência com os professores Maurício e Beatriz Tragtenberg foi marcante em sua formação. Beatriz Tragtenberg, professora, atriz e diretora de teatro, foi criadora do grupo Teatro Circo Alegria dos Pobres: que se valia de temáticas e elementos da linguagem das culturas populares tradicionais. Já com o sociólogo Maurício Tragtenberg – que foi professor da Unicamp, da PUC e da FGV – aprendeu a questionar e a pensar os conhecimentos não convencionais; cuja influência despertou interesse pelas obras de Max Weber e de Karl Marx. Destaco, também, a influência de Gabriel Cohn, seu professor de graduação e orientador de mestrado.
Seu contato com a professora Maria Lúcia Montes, durante suas pesquisas com integrantes do grupo Samba-lenço, moradores da Freguesia do Ó em São Paulo, foi imprescindível para seus interesses constantes no estudo das culturas populares.
Os diálogos com o professor Oswaldo Elias Xidieh, profundo conhecedor das culturas populares brasileiras, também foi de máxima significação para o desenvolvimento de suas pesquisas sobre as culturas e saberes populares, observando, sobretudo, os produtores e detentores desses saberes; enfocando o contexto de realização das atividades culturais, considerando a temporalidade e oralidade destas manifestações.
Tornou-se colaborador nas pesquisas de Maria Ignez Moura Novais acerca da cultura popular, parceria que os torna amigos, depois namorados e casal. A partir daí estabelece contatos constantes com a temática e com grupos culturais populares localizados no estado de São Paulo, observando práticas alicerçadas no catolicismo popular, sincretizado com elementos da cultura e da religiosidade afro-brasileira.
Seu interesse em relação às culturas populares foi despertado, inicialmente, pela constatação da presença destes segmentos em centros urbanos, contrariando a visão tradicional e folclorista de que seriam tipicamente rurais. Esse interesse inicial passou a ser aprofundado em função da observação das formas de solidariedade vinculadas aos laços comunitários e devocionais.
A mudança para a Paraíba, no final dos anos 70, permitiu o conhecimento de outros contextos de investigação, onde conclui seu curso de graduação em Ciências Sociais (iniciado na USP) no então campus II da UFPB, em Campina Grande (hoje UFCG). No seu Trabalho de Conclusão de Curso, analisou os doceiros artesanais que atuavam na Feira de Campina Grande, atentando ainda para o dinamismo cultural em torno das danças e festas, enquanto eventos comunitários que envolviam famílias e a coletividade.
Durante o mestrado em Sociologia, volta à USP, onde pesquisa o Samba-Lenço de Mauá, sob a orientação do Dr. Gabriel Cohn. No ano de 1996, conclui o curso de doutoramento em História Social, pesquisando a Festa do Rosário de Pombal-PB.
Em sua tese, enfocou a história da festa: a organização dos grupos, a disputa entre representantes da Irmandade do Rosário com os párocos; os conflitos sobre os espaços da festa e a autonomia da Irmandade.
Suas pesquisas incluem a observação de manifestações culturais, como danças denominadas de “cocos”, e os cantores repentistas, na parceria de toda uma vida com a Dra. Maria Ignez Ayala; ambos preocupados em observar atentamente os contextos sociais de produção e desenvolvimento destas atividades, bem como as relações estabelecidas no interior dos grupos ou entre as pessoas com as instituições sociais.
É coordenador do Laboratório de Estudos da Oralidade (LEO), de caráter interdisciplinar, atualmente vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Linguística (PROLING), onde vem realizando pesquisas e projetos de Extensão, com a presença de professores e estudantes de graduação e pós-graduação, onde se encontra o fulcral projeto Acervo Ayala (www.acervoayala.com).
Junto ao Departamento de Ciências Sociais/CCHLA da UFPB, atuou como docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, orientando discentes em nível de graduação e pós-graduação, muitos que, posteriormente, tornaram-se colegas de trabalho na UFPB, como é o meu caso.
No LEO produziu um acervo audiovisual bastante expressivo: centenas de fotos de diferentes manifestações, feitas nos contextos de pesquisa das festas, das danças, de rituais, brincadeiras etc.; junto aos artesãos, cantadores, dançadores, brincantes ou moradores; muitas horas de registros em vídeos (alguns didático-culturais) ou centenas de gravações em fitas de áudio (fitas magnéticas e digitais). O Laboratório recebeu doações de importantes instituições, como a Fundação Itaú Cultural e a Discoteca Oneyda Alvarenga, do Centro Cultural São Paulo.
Coordenou, em diferentes anos, uma série de pesquisas sobre bairros da cidade, investigando a memória coletiva, as manifestações culturais, formas de religiosidades, transformações decorrentes da urbanização e do mercado imobiliário etc., com discentes de Ciências Sociais e de outros cursos. Estas incursões acadêmicas permitiram que alunos experenciassem técnicas de pesquisa, por meio da observação participante, das histórias de vida, oralidade ou das entrevistas, de modo a formar pesquisadores e docentes.
Nesta série de incurso pela cidade, suas pesquisas nos mostram vidas sociais, relatadas através da correlação de longas experiências de preconceitos sofridos por pessoas vulnerabilizadas, por serem de baixa renda e marcadas por questões raciais, mas que permaneciam enquanto “brincantes” de práticas culturais populares, especialmente (mas não só) vinculadas à cultura afro-brasileira, como o “Coco” com forte presença no bairro da Torre, a “Barca Santa Maria” em Mandacaru e a Nau Catarineta em Cabedelo.
Entre 2003 e 2004, atuou, no âmbito da Paraíba, junto com Maria Ignez Novais Ayala, na coordenação da pesquisa “Registro Sonoro de Tradições Musicais de Pernambuco e Paraíba”, refazendo o percurso da Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938, financiada pela Petrobras que resultou na produção do álbum “Responde a roda outra vez”, com dois CDs contendo uma coletânea de músicas dos municípios pesquisados. Este álbum – e outras formas de divulgação da pesquisa – permitiu dar visibilidade a alguns grupos de cultura popular tradicional e ampliar a proeminência de outros, como já acontecera em 2000 com a produção de livro e CD denominados “Cocos: alegria e devoção”, uma das obras mais importantes sobre a temática no Brasil.
Destaco que o trabalho do professor Marcos Ayala não influenciou apenas o universo acadêmico, sendo fundamental para o mapeamento do patrimônio imaterial no estado da Paraíba, privilegiando bairros populares nos quais ocorreu a migração de uma população fortemente envolvida com as culturas populares tradicionais, de base comunitária. Deste modo, permitiu a visibilização de atividades desenvolvidas neste campo cultural que não costumavam ter espaços na mídia ou nas instituições oficiais, tornando-as mais conhecidas pela própria população local.
Os dados coletados em suas pesquisas foram essenciais para a elaboração de um projeto financiado pelo IPHAN, em cooperação com a UFPB, a partir de 2009, denominado “Inventário dos Cocos como Patrimônio Imaterial brasileiro”, sob a coordenação geral de Maria Ignez Novais Ayala, que inventariou a brincadeira do coco na Paraíba e em Pernambuco, com vistas ao registro como parte do Patrimônio Imaterial Brasileiro. Este trabalho passou a tematizar a região Nordeste; contando com a participação de professores e estudantes da UFPE, UFRN, UFAL e URCA, além da UFPB, instituições com as quais mantém parceria.

A partir de sua presença no projeto “Saberes e fazeres não institucionais: estudos e divulgação de acervo etnográfico do Patrimônio Imaterial Brasileiro”, que tem início no ano de 2013, passa a se dedicar mais intensamente ao acervo do Patrimônio Imaterial, dando continuidade à preservação e organização dos registros fotográficos, em áudio e vídeo, resultantes de pesquisas de campo realizadas em São Paulo e no Nordeste, além dos estudos sobre estes arquivos.
Por meio de financiamento do Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos, vinculado à Secretaria da Educação e Cultura da Paraíba, coordenou projetos de Extensão, em parceria com a UFPB e o coletivo Meio do Mundo. Com esses trabalhos, conseguiu-se reorganizar manifestações populares desabilitadas e fora de funcionamento, que voltam à rua sob o comando de antigos Mestres ou novos dançantes.
Sua participação – como coordenador ou pesquisador –, em tantos projetos de pesquisa e extensão, foi desdobrada em orientações e publicações, em livros e capítulos de livros seus ou de ex-orientandos, sobre manifestações culturais populares e tradicionais em distintos bairros da cidade e/ou do estado.
Muitas destas produções refletem a influência do pensamento e do trabalho acurado, ético e engajado do Dr. Marcos Ayala, que é uma importante referência para análises acerca destas manifestações no Brasil; imprescindível aos estudos sociológicos que valorizam os saberes e fazeres populares, que corroboram a invenção de tradições como domínios de ações que se particularizam em contextos culturais específicos.
Sugestões de obras do autor:
AYALA, Maria Ignez Novais; AYALA, Marcos. Cultura popular no Brasil: perspectivas de análise. São Paulo: Ática, 1987. (Série Princípios, n. 122). O livro teve várias edições, as últimas pela Abril, no formato e-book.
AYALA, Maria Ignez Novais; AYALA, Marcos (org.). Cocos: alegria e devoção. 2. ed. Crato: Edson Soares Martins, 2015. Edição digital. Disponível em: https://acervoayala.com/cocos-alegria-e-devocao-livro/.
AYALA, Maria Ignez Novais; AYALA, Marcos. Metodologia para a pesquisa das culturas populares: uma experiência vivenciada. Crato: Edson Soares Martins, 2015. Disponível em: https://acervoayala.com/metodologia-para-a-pesquisa-das-culturas-populares-livro/.
AYALA, Marcos. E por falar em desigualdade… (culturas populares e relações de poder). In: MARTINS, Edson Soares; GONÇALVES, N.; FERREIRA, Dulcinéia; AYALA, Maria Ignez Novais; AYALA, Marcos. Cultura Popular e Caminhos Entre Resistências e Políticas. Crato: Edson Soares Martins, 2019, p. 09-20.
AYALA, Marcos. Samba Lenço de Mauá: uma dança devocional afro-brasileira. E-book. Crato: Editora da URCA, 2023. Disponível em: https://acervoayala.com/samba-lenco-de-maua-livro/.
AYALA, Marcos; AYALA, Maria Ignez Novais; MARTINS, Edson Soares. Culturas populares & Patrimônio Imaterial: Estudos reunidos. E-book. Crato: Editora da Urca, 2023. Disponível em: https://acervoayala.com/758-2/.
AYALA, Marcos; SILVEIRA, Rosa Maria Godoy; AYALA, Maria Ignez Novais; MACIEL, Diógenes André Vieira. Embarcando na Nau Catarineta (Literatura, História e Memória Cultural). E-book. Crato: Editora da URCA, 2023. Disponível em: https://acervoayala.com/embarcando-na-nau-catarineta-livro/. Acesso em: 08 set. 2025.
RAMOS, José de Carvalho; AYALA, Marcos; MACIEL, Diógenes André Vieira; AYALA, Maria Ignez Novais; FONTES, Lygia Silveira. Barca Santa Maria: versos e memória da brincadeira da Nau Catarineta de José de Carvalho Ramos (Mestre Deda). Campina Grande: Bagagem, 2005.

