Por Elisa Guaraná de Castro
Pelas Trilhas de uma Sociologia que Atravessa Fronteiras.
Gian Mario Giuliani, ou Gianmario, nasceu em 1943, em Remedello, na Região da Lombardia, na Itália. Se formou em Sociologia em 1970, pela Universitá Degli Studi Di Trento. Em 1971, visitou a América do Sul pela primeira vez, em uma viagem para a Argentina. Com uma breve passagem de um ano (1974) na Argentina, em 1975, se estabeleceu no Rio de Janeiro em plena ditadura militar. Entre os anos de 1975 e 1979, realizou seu mestrado no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), concluído com a dissertação Amazonia: Fuga ao Tributo da Renda da Terra, sob a orientação de Luis Antonio Machado da Silva. Em 1984, defendeu sua tese de doutorado, La grande propriete fonciere dans un estat du Nordeste du Bresil: la Paraiba, em Sociologia Rural, na Université de Paris X, Nanterre, Paris X, França, sob orientação de Michel Gervais. Em 1978, foi contratado pela Universidade Federal da Paraíba, onde atuou até 1988, na graduação e na pós-graduação. E, em 1988, se tornou professor da UFRJ, no departamento de Sociologia, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, como professor de graduação e do Curso de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia. Realizou ainda Pós-doutorado na Università di Bologna (1991-1992), na University of Massachusetts Amherst (2001), na Universita Degli Studi Di Urbino (2006) e na Universit degli studi di Padova (2006).
Mario Giuliani tem contribuições fundamentais para a questão agrária brasileira. A análise sobre a questão agrária na Amazônia, desenvolvida em sua dissertação, aprofundou seus estudos sobre a renda da terra (Giuliani, 1984), e o tema fundiário sobre o estado da Paraíba também foi objeto em sua tese de doutorado. No início da sua atuação na UFRJ, nos anos 1980, desenvolveu pesquisas sobre a produção agropecuária no estado do Rio de Janeiro. Demonstrou, em um estudo dos censos agropecuários e com trabalho de campo em diferentes regiões do estado, na pesquisa “As Formas de Reprodução e Expansão das Unidades Produtivas Capitalistas no Campo do Rio de Janeiro”, que havia um contínuo movimento de resistência e busca de novos produtos nas diferentes regiões e que a concentração da terra era mais um fator que impactava as condições para a produção familiar. Colocando-se na contramão de uma percepção nos estudos agrários no Brasil sobre o estado do Rio de Janeiro, apontou a agricultura como dinâmica, ainda que com pouco investimento público.
Em uma das muitas parcerias que Mario Giuliani realizou para estudar e contribuir com casos concretos, desenvolveu com o Instituto de Desenvolvimento e Ação Comunitária um projeto no qual estendeu sua discussão sobre o desenvolvimento rural para analisar os assentamentos rurais do estado do Rio de Janeiro. O debate proposto pelo pesquisador problematizava leituras dicotômicas entre sucesso e fracasso, aptidão rural ou urbana. Sua contribuição para a sociologia e economia rural aportou a leitura de que, no estado do Rio de Janeiro – visto como inapto para a agricultura e, portanto, para a reforma agrária, mesmo para quem defendia o recente Programa Nacional de Reforma Agrária (1985) –, havia uma agricultura familiar e de pequenos produtores que desafiava as condições de pouco apoio financeiro e de políticas públicas, e, ainda, da pressão imobiliária. Nesse sentido, discordou da percepção de que o estado não tinha “vocação” para a agricultura, somando-se a pesquisadores, em especial do CPDA/UFRRJ e da UFF, que discutiam a complexidade da questão fundiária, da produção familiar e dos assentamentos rurais no estado do Rio de Janeiro, explorado no livro Campo Aberto. O rural no Estado do Rio de Janeiro (Giuliani et al., 1998). Na pesquisa em parceria com o Idaco, mais uma vez discordou da leitura dicotômica que tratava os assentamentos rurais do RJ como fadados ao fracasso, em um estado urbano. Demonstrou que o esforço de atuação dos assentados/as implicava muitas vezes a descapitalização no período de acampamento e início dos assentamentos, para se manterem com pouco apoio de políticas públicas. Portanto, não se tratava de baixa aptidão dos assentados e sim pouco investimento e propostas de médio e longo prazo, que garantissem as condições de vida e econômicas para a produção e comercialização.
O pesquisador contribuiu ainda de forma pioneira, a partir da experiência do Rio de Janeiro, com o debate de deslocamentos para o campo dos “novos rurais” no Brasil. Ao discutir o neo-ruralismo, soma-se aos que já problematizavam outra dicotomia, o rural em oposição excludente ao urbano, e traz as reflexões “desta forma de ir ao campo”, em busca de uma natureza perdida na “cidade”. Esse movimento produz, como demonstra, novas percepções sobre rural, interações e agendas como o tema ambiental (Giuliani, 1990).
Desde seus primeiros trabalhos, um dos temas em que se tornou uma grande referência é o diálogo entre a ecologia, meio ambiente e a sociologia. O seu artigo “Sociologia e Ecologia: um Diálogo Reconstruído” (1998) é amplamente acionado e citado. Tratando como as duas ciências nascem e se desenvolvem com paradigmas distintos, propõe a urgência de um diálogo que promova a “humanização da ecologia” em que a sociologia incorpore a relação homem/natureza. A contribuição do pesquisador foi ampla no campo ambiental e da ecologia a partir desse diálogo. Deixou sua marca em reflexões teóricas que aprofundam as questões com as quais trabalhou ao longo do seu percurso (Giuliani, 2011), em pesquisas e análises sobre questões ambientais, tanto sobre os impactos de projetos de desenvolvimento, como na instalação do Porto de Sepetiba/RJ e do Complexo Petroquímico do RJ, quanto nas análises sobre formas de ordenação ambiental, como parques, reservas e áreas de proteção ambiental (Giuliani, 2007).
Outro importante campo de estudos que dialogou com os dois anteriores, mas trouxe novas reflexões, é sobre o empresariado e o desenvolvimento econômico. Em parceria com Paola Cappellin, trouxe novos aportes sobre responsabilidade social empresarial em diálogo com a questão ambiental no Brasil (Cappellin; Giuliani, 2004).
Ao longo de toda sua trajetória Gian Mario Giuliani sempre atuou com uma aguda preocupação política e social para as desigualdades sociais, somando-se à defesa da democracia em países como a Argentina e o Brasil. Sua contribuição para a sociologia e, em especial, para a sociologia brasileira carrega, em seus recortes e suas leituras inovadoras, o pioneirismo e a atualidade de abrir caminhos para novas abordagens.
Sugestões de obras do autor:
CAPPELLIN, P.; GIULIANI, G. M. The Political Economy of Corporate Responsibility in Brazi. Social and Envirinmental Dimensions. In: United Nations Research Institute for Social Development- UNRISD. (Org.). Tecnology, Business and Society. Genbra: UNRISD, 2004, v. 14, p. 1-67. Acessado em 17/09/2025 em https://www.files.ethz.ch/isn/102692/14.pdf
GIULIANI, G. M. A Renda da Terra: Um Empasse Na Teoria. RAIZES, v. 4-5, p. 39-60, 1984. Acessado em 17/09/2025 em https://raizes.revistas.ufcg.edu.br/index.php/raizes/article/view/594?articlesBySimilarityPage=1
GIULIANI, G. M. Neoruralismo: O Novo Estilo dos Velhos Modelos. REVISTA BRASILEIRA DE CIENCIAS SOCIAIS, v. 14, p. 59-67, 1990.
GIULIANI, G. M.; CAPPELLIN, P.; Morel MORAES, R. L. M.; PESSANHA, E.. Organizações empresariais em face da responsabilidade social das empresas no Brasil. In: Triburcio Silva C.A.; Souza Freira F.. (Org.). Balanço Social: teoria e prática. São Paulo: Atlas, 2001, v., p. 33-67.
GIULIANI, Gian Mario; MEDEIROS, Leonilde Servolo de; CARNEIRO, Maria José; RIBEIRO, Ana Maria Motta. (Org.). Campo Aberto. O rural no Estado do Rio de Janeiro. 1ªed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1998, v., p. 65-78.
GIULIANI, G. M. Sociologia e Ecologia: Um Diálogo Reconstruído. Dados, Rio de Janeiro, v. 41, p. 147-172, 1998. Acessado em 17/09/2025 em https://www.scielo.br/j/dados/a/WJWMhDzSY3bTCTMWFLgsZcS/?lang=pt
GIULIANI, G. M. As áreas naturais protegidas e a Responsabilidade Social e Ambiental das empresas: o caso do Mosaico da Mata Atlântica Central Fluminense e do Comperj”. Desenvolvimento e Meio Ambiente (UFPR), v. 16, p. 21-37, 2007. Acessado em 17/09/2025 em https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11902
GIULIANI, G. M. Ecologia e Nostalgia do futuro. Estudos Sociedade e Agricultura (UFRJ), v. 19, p. 270-313, 2011. Acessado em 17/09/2025 em https://revistaesa.com/ojs/index.php/esa/article/view/343/339

