Cheguei ontem à noite a São Paulo vindo de Marrocos, onde a ISA organizou o quinto Fórum Mundial de Sociologia, que reuniu mais de 4.000 sociólogos de mais de 100 países.
Um sentimento de impotência diante da violência do nosso mundo e da polarização.
Este Fórum Mundial de Sociologia e o congresso da SBS são organizados em um momento de grande sofrimento no mundo. A alegria de estar junto com milhares de sociólogas e sociólogos contrasta com a tristeza, a raiva de ver tanta injustiça e o sentimento de impotência diante do genocídio em curso em Gaza. Sabemos que a cada dia que estamos juntos, o exército israelense assassina crianças, adolescentes e adultos em Gaza enquanto tentam encontrar comida para sobreviver mais um dia.
Como sociólogos, nos sentimos impotentes diante desse genocídio e das guerras que se multiplicam em outras regiões do mundo, como na Ucrânia ou no Congo. Vemos que atores reacionários e autoritários estão subindo em todos os continentes e nos perguntamos o que podemos fazer como sociólogos.
Este congresso brasileiro é organizado em um momento de crescente polarização.
Estou muito preocupado com o aumento da intolerância, na sociedade em geral, mas também no mundo acadêmico e, às vezes, entre sociólogos. A discordância enfrenta cada vez mais a falta de respeito, a rejeição e, cada vez mais, o ódio. Neste
contexto, é importante reafirmar que a base da sociologia reside na abertura ao outro, na vontade de compreendê-lo e na capacidade de melhorar nossas próprias análises a partir de perspectivas diferentes. Os sociólogos têm um papel importante a desempenhar para substituir as notícias falsas que alimentam o ódio por análises sociológicas que ajudam a compreendê-lo.
Renovação da sociologia
O Fórum Mundial de Sociologia e o Congresso Brasileiro de Sociologia também são organizados em um momento de profunda renovação da sociologia que vivemos desde o início do século, e o Brasil é um ator fundamental dessa renovação.
Nas últimas décadas, revisamos a história, os conceitos-chave e os métodos da sociologia a partir de um diálogo global, a partir de contribuições muito mais fortes da sociologia latino-americana e do Sul global para a sociologia global, e graças a uma maior abertura às contribuições das mulheres na sociologia em nível nacional e global.
As perspectivas críticas que tiveram que ser desenvolvidas fora da sociologia, como as perspectivas feministas ou decoloniais, estão agora integradas em nossa disciplina, em diálogo com ela, e renovaram nossa maneira de fazer sociologia, nossos métodos, nossa epistemologia e impulsionaram uma época muito estimulante de revisão de todos os nossos conceitos, desde a modernidade e a transição ecológica até o conceito de cuidado, subjetividade e conhecimento.
As sociólogas e os sociólogos brasileiros têm sido atores fundamentais nessa renovação da sociologia. Essa renovação da sociologia também ocorre em nível nacional, nos debates e nas evoluções da sociologia brasileira, graças às contribuições de novos atores, sociólogas e sociólogos de diferentes origens sociais.
Marielle Franco era um desses atores. Sete anos após seu assassinato, ela continua nos inspirando. Marielle dizia que a revolução social será feita pelas mulheres negras ou não será feita. Isso também é verdade para a renovação da sociologia neste país e no mundo. Entre os atores-chave dessa renovação está uma nova geração de sociólogas, em particular sociólogas negras, que, apesar das dificuldades e dos preconceitos que continuam sofrendo na sociedade e na universidade, estão contribuindo para uma transformação na maneira de fazer sociologia e para uma sociologia melhor, com menos preconceitos eurocêntricos e androcêntricos. Estou muito feliz por estar presente neste congresso para ouvi-los ao longo destes dias e aprender mais sobre a renovação em curso da sociologia no Brasil e no mundo.
Estamos vivendo uma época em que coexistem um contexto difícil e de crescente polarização e um grande dinamismo da sociologia. Neste contexto, é importante que as sociólogas e os sociólogos se unam para recuperar energia, compartilhar suas pesquisas, lembrar-se por que são sociólogas e sociólogos, e que este é um momento em que a sociologia tem um papel importante, um momento para a sociologia.
Este é o tema do Manifesto que estamos divulgando pela ISA e pela SBS. No site da ISA, estamos coletando assinaturas de pesquisadores individuais para apoiar o texto.
Manifesto pela sociologia
Quando chefes de Estado promovem a desconfiança na ciência e se multiplicam os ataques contra as ciências sociais;
Quando as fake news circulam mais e com maior impacto do que as análises baseadas em pesquisas;
Quando muitos líderes políticos difundem discursos de ódio e negam a uma parte da população o direito à cidadania plena;
Quando a desumanização de categorias inteiras de pessoas está se tornando novamente uma ferramenta para conquistar e consolidar o poder;
Quando se nega a evidência científica para esconder as emergências ecológicas e sociais;
Quando os Estados reprimem aqueles que denunciam um genocídio, a violência sistêmica ou o racismo;
Quando uma concentração de riqueza sem precedentes permite que alguns multimilionários controlem os meios de comunicação e as redes sociais;
Quando a humanidade enfrenta crises globais interconectadas que determinarão a vida das gerações futuras;
Quando a liberdade acadêmica está ameaçada, mesmo nas democracias estabelecidas;
Acreditamos que as intervenções críticas das ciências sociais são mais essenciais do que nunca.
E reafirmamos os valores e compromissos sobre os quais baseamos nosso trabalho como pesquisadores, educadores e intelectuais públicos.
Defendemos:
Uma sociologia rigorosa baseada em fatos e análises, que rejeita narrativas simplistas e abrange a complexidade do mundo;
Defendemos uma sociologia independente que nos lembre que as palavras dos poderosos nem sempre são a verdade e que uma mentira, mesmo repetida mil vezes, continua sendo uma mentira;
Defendemos uma sociologia crítica que questione as crescentes desigualdades e ponha em causa o mito do self made man, da masculinidade alfa e das aspirações ao consumismo como encarnação da felicidade;
Defendemos uma sociologia pública que se envolva no debate com os atores sociais, não a partir de um pedestal de suposta superioridade intelectual, mas em diálogo com aqueles que lutam para transformar a sociedade e defender o bem comum;
Defendemos uma sociologia geral que resista aos riscos da hiperespecialização e da fragmentação e analise os grandes desafios do nosso tempo;
Defendemos uma sociologia global que aprenda com pesquisadores e atores sociais de diferentes partes do mundo como entender e enfrentar os desafios do século XXI, uma sociologia que contribua para fortalecer o sentimento de humanidade comum.
Afirmamos que as ciências sociais e a liberdade acadêmica são parte intrínseca da democracia e devem ser protegidas e promovidas.
Acreditamos que um debate público informado, historicamente fundamentado e sociologicamente relevante é vital para compreender e enfrentar as crises de nosso tempo.
Estamos convencidos de que a sociologia não apenas nos ajuda a compreender o mundo, mas também a construir um futuro mais justo, igualitário, pacífico e sustentável.
Em tempos de mudanças climáticas, destruição da natureza, guerras, desigualdades crescentes e ódio, a sociologia é uma ferramenta indispensável para vivermos juntos e compartilharmos um planeta limitado.
Essas são as razões pelas quais é tão importante que sociologistas se reúnam internacionalmente neste 22º Congresso Brasileiro de Sociologia.
A declaração “Um tempo para a sociologia” está disponível no site da ISA e pode ser assinada através deste formulário.
