Foi com grande pesar que a comunidade brasileira de estudiosos e estudiosas do trabalho recebeu a notícia do falecimento de nosso colega Philippe Zarifian, ocorrido em 4 de julho de 2026, em Paris.
Nascido em 1947, Philippe Zarifian iniciou sua trajetória profissional, em 1989, na Associação Regional do Conservatoire des Arts et Métiers du Nord-Pas-de-Calais, tornando-se posteriormente professor do Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM), vinculado ao Institut National d’Étude du Travail. Antes de consolidar sua carreira acadêmica, atuou como economista da Confédération Générale du Travail (CGT) e dirigiu um dos departamentos do Centre d’Études et de Recherches sur les Qualifications (CEREQ).
A partir de 1993, passou a integrar a então Universidade de Marne-la-Vallée, atualmente Universidade Gustave Eiffel, instituição à qual permaneceu vinculado até o fim de sua carreira. Além de professor de Sociologia, exerceu a função de Diretor de Pesquisa no Laboratoire Techniques, Territoires et Sociétés (LATTS). Nesse período, foi responsável, ao lado de Yves Lichtenberger, pela criação de um Diplôme d’Études Supérieures Spécialisées (DESS) e, em parceria com Pierre Veltz, de um Diplôme d’Études Approfondies (DEA). Entre 1999 e 2001, esteve cedido ao Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) como membro associado da equipe Genre, Travail et Mobilités (GTM), ocasião em que aprofundou a interlocução intelectual que já mantinha com pesquisadores brasileiros.
Sua relação com o Brasil, entretanto, antecede a sua trajetória como pesquisador. Zarifian viveu no país entre 1959 e 1964, dos 12 aos 17 anos de idade, período em que acompanhou a permanência de seu pai, executivo de uma empresa multinacional. Retornou posteriormente em diversas ocasiões, até que um sólido vínculo institucional passou a unir o LATTS à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a partir do final da década de 1980, dando origem a uma intensa e duradoura cooperação científica com pesquisadores do Departamento de Engenharia de Produção. Dessa relação resultaram pesquisas conjuntas sobre organização do trabalho não-taylorista, livros e capítulos de livros veiculados no Brasil e na França, eventos em ambos os países, além de um forte intercâmbio de pessoas numa intensa via de mão-dupla.
O dinamismo dos debates brasileiros no campo dos estudos do trabalho e a vocação interdisciplinar que aproximou cientistas sociais e engenheiros de produção fizeram com que a presença de Zarifian entre nós deixasse marcas profundas, não apenas na engenharia de produção, mas também na sociologia e na antropologia do trabalho, além de outras áreas afins, igualmente voltadas aos estudos sobre qualificação, organização do trabalho e transformações produtivas. Essa influência ficou evidente, entre outros momentos, no Seminário Internacional “Padrões Tecnológicos e Políticas de Gestão”, realizado no final da década de 1980, e que reuniu em São Paulo alguns dos principais especialistas internacionais no tema. A participação de Zarifian foi decisiva num momento em que se renovavam os estudos brasileiros acerca dos paradigmas tecnológicos, das novas formas de organização e gestão do trabalho, bem como das relações entre emprego, qualificação e mudanças produtivas.
Não por acaso. Philippe Zarifian já havia se tornado uma das principais referências internacionais da sociologia, desafiada a compreender as transformações em curso na organização do trabalho. Suas reflexões sobre o modelo das competências, e as controvérsias que animou com suas ideias, exerceram influência duradoura sobre pesquisadores e profissionais em diferentes países. Sua contribuição pioneira se expressa em obras fundamentais como La nouvelle productivité (1995), Le travail et l’événement (1995), Travail et communication (1996) e Le modèle de la compétence (2001), este último rapidamente traduzido ao português, pela Editora do Senac, em 2003.
Em escritos posteriores, Zarifian revisitou criticamente as suas formulações sobre a centralidade do trabalho, aprofundando sua reflexão sobre as relações entre trabalho, subjetividade e controle social. Entre esses textos destacam-se À quoi sert le travail? (2003) e Le travail et la compétence: entre puissance et contrôle (2009), ambos largamente debatidos no Brasil. Sua produção intelectual também se estendeu a temas mais amplos da vida social e política, como demonstram obras como Éloge de la civilité. Critique du citoyen moderne (1997), L’échelle du monde. Globalisation, Altermondialisme, Mondialité (2004) e L’individu face aux mouvements du monde. Iran, Brésil, France, Monde (2007).
Com a partida de Philippe Zarifian, o campo internacional dos estudos do trabalho perde um de seus mais criativos e influentes intelectuais. A comunidade acadêmica brasileira perde, ao mesmo tempo, um interlocutor privilegiado, um parceiro de longa data e um amigo, cuja obra e generosidade intelectual continuarão inspirando novas gerações de pesquisadores e pesquisadoras.
Por Nadya Araújo Guimarães, Helena Hirata, Mário Salerno e Ruy Braga
