Nota de pesar do CP Sociologia da Violência pelo falecimento do professor Michel Misse

Publicado em 15 de agosto de 2025

Comitê de Pesquisa em Sociologia da Violência da Sociedade Brasileira de Sociologia lamenta profundamente o falecimento do professor Michel Misse, ocorrido em 14 de agosto de 2025. Perdemos um dos nossos mais destacados pesquisadores, cuja trajetória marcou gerações e ajudou a consolidar o campo de estudos sobre crime, violência e segurança pública no Brasil.

Filho de imigrantes libaneses, Michel nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 12 de abril de 1951. Chegando ao Rio de Janeiro para estudar na UFRJ em 1967, Michel envolveu-se intensamente na militância política. Foi integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) entre 1968 e 1976 e participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1981. Em 1972, durante a ditadura militar, foi sequestrado, junto de sua companheira, por policiais à paisana na Tijuca, no Rio de Janeiro, e levado para o Batalhão do Exército na rua Barão de Mesquita — então sede do DOI-Codi. Lá, sofreu tortura e, mesmo após a libertação, permaneceu sob vigilância por longo período. Essa experiência marcou profundamente sua visão de mundo e reforçou seu compromisso com uma análise crítica e engajada da sociedade brasileira.
Professor titular de Sociologia na UFRJ, Michel foi o criador, em 1999, do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU), que se tornou referência nacional e internacional na produção de conhecimento sobre o tema. Também foi fundador e editor da Revista Dilemas – Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, hoje um dos principais canais de divulgação científica no campo da Sociologia da Violência, garantindo a consolidação do campo e oferecendo um espaço fundamental para que jovens pesquisadores pudessem publicar seus trabalhos.

Ao longo de sua carreira, foi chefe de departamento, dirigiu a Editora UFRJ (2012-2019) e atuou como professor visitante em universidades no Brasil e no exterior, como UFF, Universidade de Chicago e Université de Lille. Teve participação ativa em redes e projetos de grande impacto, como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Violência, Poder e Segurança Pública (INViPS), e manteve colaboração constante com o INCT-InEAC – Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos, dialogando com pesquisadores e grupos de pesquisa no Brasil e no exterior, sempre com um olhar atento à realidade brasileira e latino-americana.

Michel foi um intelectual criativo, responsável por produzir conceitos originais para a compreensão da violência na sociedade brasileira, como o de sujeição criminal, que se tornou referência para a análise das representações sociais e institucionais que moldam as relações entre crime, criminalização e identidade social. Sua obra incorporou e atualizou, de forma crítica, original e comprometida com os achados empíricos do campo, elementos de diferentes perspectivas teóricas, desde a tradição marxista até a sociologia weberiana e o labeling approach, articulando tradição e inovação em análises densas e metodologicamente rigorosas.

Esse movimento teórico ganhou expressão em seu mestrado no Iuperj, defendido em 1987 sob a orientação de Carlos Hasenbalg, e resultou em alguns de seus textos mais reconhecidos — entre eles, o ensaio “O senhor e o escravo como tipos limites de dominação e estratificação” (1996).

Pioneiro nos estudos sobre mercados ilegais, violência urbana e controle social, Michel nos legou obras fundamentais, como “Crime e Violência no Brasil Contemporâneo” (2006), “Acusados e Acusadores” (2008), “Quando a Polícia Mata” (2013, com Grillo, Teixeira e Néri) e “Mercados Ilegais, Violência e Criminalização” (com Sérgio Adorno, 2018). Sua tese de doutorado, “Malandros, marginais e vagabundos & a acumulação social da violência no Rio de Janeiro” (1999), sob orientação de Luiz Antônio Machado da Silva, em cuja banca estiveram Roberto Kant de Lima, Sérgio Adorno, Luiz Eduardo Soares e Edmundo Campos Coelho, é hoje leitura obrigatória, com a formulação do conceito de acumulação social da violência, síntese de refinamento teórico e sólido trabalho empírico, combinando estatísticas, jornalismo investigativo, entrevistas e narrativas de vida.

Entre suas contribuições mais relevantes, destaca-se a coordenação da pesquisa nacional “O Inquérito Policial no Brasil”, que trouxe um diagnóstico detalhado sobre o funcionamento dessa etapa da investigação criminal, influenciando debates acadêmicos e propostas de reforma no sistema de justiça.

Para além de sua vasta produção acadêmica, Michel era reconhecido por sua cordialidade e capacidade de diálogo, atuando como ponte entre diferentes perspectivas e atores do campo da segurança pública e da pesquisa acadêmica. Construiu redes e colaborações que aproximaram pesquisadores, operadores do sistema de justiça, organizações da sociedade civil e gestores públicos, sempre com disposição para ouvir e articular ideias em busca de soluções mais democráticas e efetivas.
Esse espírito conciliador caminhava lado a lado com seu rigor científico. Michel era criterioso na construção de categorias analíticas, atento à consistência teórica e metodológica de cada pesquisa, e comprometido com a produção de conhecimento que fosse, ao mesmo tempo, relevante para o debate público e tecnicamente robusto. Seu trabalho é exemplo de como combinar sensibilidade intelectual, densidade teórica e impacto social.

Michel Misse era isso tudo e muito mais: um colega generoso, um mestre inspirador, um intelectual inquieto que nos provocava a olhar para o Brasil com profundidade, criticidade e compromisso democrático. Sua partida deixa um vazio imenso, mas sua obra permanece como referência e inspiração para quem se dedica a compreender e transformar a realidade da violência e da justiça no país.

À sua família, aos seus amigos e à comunidade sociológica e acadêmica, enviamos nossos sentimentos mais sinceros. Seguiremos honrando seu legado, comprometidos com a riqueza analítica, a abertura ao diálogo e a sensibilidade crítica que Michel sempre nos transmitiu.

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