Ainda que as crises, tensões e conflitos sejam fenômenos constitutivos do campo sociológico e estejam nele sempre presentes, mesmo assim é desafiador o contexto no qual tem lugar, em 2025, o 9º Encontro Nacional de Ensino de Sociologia na Educação Básica (ENESEB). No plano nacional, testemunha-se a fragilidade do atual governo ante a força do neoliberalismo e do enraizamento social da extrema direita. No plano internacional, crescem as tensões bélicas no Oriente Médio. Além do recente ataque ao Irã, promovido por Israel e EUA, já se passou mais de um ano da guerra civil no Sudão e da ofensiva israelense contra a população em Gaza. A guerra entre Ucrânia e Rússia, ainda mais longeva, não cessa, e debates sobre programas e o uso de armas nucleares voltam a receber preocupação no mundo como um todo.
Depois de ter “parado”, de algum modo, com a pandemia de Covid-19, o tempo parece agora ter acelerado com a ampliação da vida digital, de maneira que a humanidade tem vivido sobressaltos a cada grande evento climático potencialmente mais destruidor.
O multilateralismo da segunda metade do século XX parece não mais construir pactos diplomáticos diante dos conflitos quentes da atualidade. A expansão da extrema direita em diversos países forma um conjunto de forças que avança sobre direitos já enfraquecidos por décadas de neoliberalismo, marcadas pela desregulamentação dos direitos sociais e a intensificação da privatização do Estado.
Com o recrudescimento das políticas anti(-i)migratórias, que encontram versões em todos os continentes, diversos grupos populacionais são impedidos de circular pelo globo.
As lutas sociais emanam de movimentos e ações contestatórias, cujas pautas surgem da exploração e dominação histórica sobre grupos diversos. O descontentamento cresce junto com a desigualdade socioeconômica mundial.
As juventudes, por sua vez, têm muitos desafios subjetivos em um mundo em incessante mudança, que atingiu o centro da relação educativa com a mutação da educação, da escola e de seus sujeitos diante do avanço de sua mercantilização.
Entre o que o século XX nos trouxe até hoje, estava a luta que levou a Sociologia de volta aos currículos do ensino médio, ainda na primeira década dos anos 2000. E o campo do ensino de Ciências Sociais se expandiu, se diversificou e se fortaleceu em cada estado e nacionalmente, no elo entre a educação básica e a superior.
Cresceu a formação docente em universidades, cursos, programas, redes de ensino e espaços educativos, assim como o interesse de jovens pela Sociologia, para entender e atuar no mundo. Houve grandes conquistas em meio ao turbilhão de contradições. A formação de professores de Sociologia avançou com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), o Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional (ProfSocio), bem como o Plano Nacional de Livro Didático (PNLD), que proporcionou maior qualidade aos materiais pedagógicos. O impacto desses programas contribuiu efetivamente para a consolidação da licenciatura e de pesquisas na área do ensino de Sociologia.
Hoje, o campo do ensino de Ciências Sociais no Brasil é amplo, diverso e vinculado às realidades locais, construindo a formação inicial e continuada com temáticas clássicas e atuais a partir da vivência dos territórios e escolas.
A consolidação das (Contra)Reformas do ensino médio (Leis Federais nº 13.415/2017 e nº 14.495/2024) não melhorou a qualidade do ensino, tampouco trouxe a esperança da ampliação da carga horária para 2.400 horas na Formação Geral Básica visando a estabilidade da Sociologia, que foi reduzida com a introdução dos itinerários formativos.
A manutenção dos itinerários formativos e a ausência de carga horária mínima por componente geraram desigualdades no acesso aos conhecimentos disciplinares, fazendo com que a Sociologia e a Filosofia fossem preteridas na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, com menor presença nos currículos estaduais (REPU, 2025). A maior perda foi vista em São Paulo, com diminuição de 50 a 60% na carga horária. O impacto sobre a condição do trabalho docente é imediato, com o aumento do número de componentes que cada docente assume, sobretudo aqueles não vinculados à sua formação. É um duplo processo de intensificação do trabalho e de precariedade da atuação docente, que enfraquece a relação docente-estudante.
A década da obrigatoriedade (2008-2017) das Ciências Sociais em todos os anos do ensino médio mostrou o círculo virtuoso da presença-formação-pesquisa, que ampliou significativamente a atuação docente com formação adequada no componente de Sociologia na educação básica, embora seja ainda o componente com menor percentual (37,1%) (BRASIL, 2024).
Explicar fatos, processos, estruturas e dinâmicas é um dos fundamentos do fazer sociológico, e isso nos levou à pergunta: Cadê a Sociologia que estava aqui? Dissolvida em material digital e projetos empreendedores de vida juvenil – transfigurados em itinerários formativos e componentes de submissão ativa para o trabalho –, a Sociologia torna-se opaca e não pode mais ser chamada pelo seu nome.
De fato, há a consolidação de uma política educacional iniciada com a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e da (Contra)Reforma do ensino médio, pautada no esvaziamento científico do currículo reduzido ao pragmatismo do individualismo do saber fazer, que normaliza a ideologia do tornar-se “patrão de si mesmo” por meio do “empreendedorismo” das classes populares e trabalhadoras.
O convite é para que o 9º ENESEB possa mobilizar docentes, pesquisadores e estudantes de Ciências Sociais a fazer das teorias e métodos instrumentos capazes de auxiliar na construção de novos caminhos, sabendo reconhecer aliados e aliadas, de maneira que as metodologias coloquem a relação ensino-aprendizagem no centro das comunidades educativas. Para tanto, também se faz necessária uma ampla Campanha Nacional em Defesa da Sociologia na Educação Básica pautada na:
- articulação de pessoas, grupos e entidades por uma Sociologia teoricamente forte, socialmente enraizada e criticamente ativa;
- obrigatoriedade da Sociologia em todos os anos do ensino médio;
- autonomia das universidades para a formação docente;
- e contrariedade a toda forma de interferência dos interesses privatistas e financeiros na educação pública.
São Paulo, 13 de julho de 2025.
BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Caderno de conceitos e orientações do Censo Escolar 2024: 1ª etapa da coleta. Brasília: Inep, 2024. Disponível em: https://download.inep.gov.br/pesquisas_estatisticas_indicadores_educacionais/censo_escolar/orientacoes/matricula_inicial/caderno_de_conceitos_e_orientacoes_censo_escolar_2024.pdf. Acesso em: 2 jul. 2025.
REDE ESCOLA PÚBLICA E UNIVERSIDADE [REPU]. Cargas horárias da Formação Geral Básica no Ensino Médio: estudo comparativo entre as redes estaduais. [Nota Técnica]. São Paulo: REPU, 20 mai. 2025. Disponível em: www.repu.com.br/notas-tecnicas. Acesso em: 11 jul. 2025.
