
“A Sociologia torna-se a ciência da crise par excellence, que se ocupa sobretudo dos aspectos anômicos da dissolução de sistemas sociais tradicionais e da formação de sistemas sociais modernos”. Com esta citação de Teoria do agir comunicativo o sociólogo e filósofo Jürgen Habermas expressou como poucos a atualidade da Sociologia e reivindicou para ela um lugar de proeminência para a compreensão do tempo presente. E foi além: dedicou sua vida e obra à busca de maneiras sempre novas de analisar, compreender e se engajar para que tanto ela quanto outras ciências correlatas pudessem apontar alternativas para transcender as respectivas situações dadas.
Em reconhecimento a essa sua inestimável contribuição intelectual, a Sociedade Brasileira de Sociologia manifesta seu profundo pesar pelo falecimento de Jürgen Habermas. Tanto no mundo acadêmico como na vida pública abre-se uma grande lacuna.
Nascido em junho de 1929, em plena crise da República de Weimar, teve juventude marcada pelos turbulentos acontecimentos que transformaram a Europa, até que em 1949 iniciou seus estudos nas universidades de Göttingen, Zurique e Bonn. Ainda enquanto estudante iniciou sua atuação como intelectual público, relacionando conhecimentos acadêmicos com a atualidade política e cultural de sua época. Engajou-se também em movimentos políticos contra energia atômica e em favor de formas participativas de democracia. Essa presença na disputa pública em torno de temas polêmicos seguiu mesmo após sua aposentadoria em 1994, e durou até as últimas semanas de sua vida.
Uma bolsa de estudos o levou em 1956 ao Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, e ao contato com Horkheimer e Adorno. Iniciava-se um relacionamento duradouro, embora nem sempre tranquilo. A tese de livre-docência foi defendida em Marburg. Conhecida como Mudança estrutural da esfera pública é, segundo palavras dele, seu livro de maior sucesso de público. Foi Marcuse quem influenciou sua reinterpretação de Marx.
O apoio de Gadamer foi decisivo para a primeira cátedra, na universidade de Heidelberg, e para as obras hermenêuticas dos anos 1960. A virada linguística dos anos 1970, impulsionada por seu colega Karl-Otto Apel, abriu caminho para a elaboração do conceito de racionalidade comunicativa, a base de seu aporte teórico, consolidado durante sua atuação como diretor do Instituto Max Planck para Pesquisa das Condições de Vida num Mundo Técnico-Científico, professor na Universidade de Frankfurt e diretor do Instituto de Pesquisa Social. Além das obras já clássicas, nos últimos anos dedicou-se tanto a uma história da filosofia com a debates culturais.
A sociedade Brasileira de Sociologia se solidariza com familiares, amigas e amigos, e também com aquelas pessoas que tinham e têm nele uma referência ética e intelectual para seu engajamento democrático.
Por Emil Sobottka (PUC-RS)
