A Sociedade Brasileira de Sociologia manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento de Michel Misse, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), na mesma universidade. Michel foi diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, entre 1990 e 1993, e da Editora UFRJ, entre 2012 e 2019 e foi fundador, em 1999, do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (Necvu), e seu coordenador até 2022, além de fundador e editor de Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. Capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, recebeu o título honorífico de Cachoeirense Ausente Número Um, em 2009. Também foi fundador e engajado folião do Maracangalha, considerado por muitos o mais simpático bloco de carnaval do Rio de Janeiro.
Michel Misse foi um dos pioneiros e mais importantes pesquisadores brasileiros da área de estudos de crime e violência. Seu modelo teórico a respeito do processo de acumulação social da violência no Rio de Janeiro – construído especialmente a partir dos importantes e inovadores conceitos de sujeição criminal e mercadorias políticas – é uma contribuição inestimável a essa área, em particular, e à sociologia, em geral, visto que consiste na interpretação sociológica da emergência e da transformação histórica de um complexo ordenamento social, desenvolvido inicialmente no Rio, mas que em poucos anos também começou a ser observado em outros estados. Não por acaso o modelo também tem sido mobilizado por pesquisadores de diversos países da América Latina, como México, Venezuela, Colômbia e Chile, para lidar com questões de suas próprias realidades sociais. Consequentemente, alguns de seus textos foram traduzidos para o Espanhol, em uma coletânea intitulada Una identidad para el exterminio: la sujeción criminal y otros escritos (Universidad de La Frontera, 2018). Seu trabalho teve – e permanecerá tendo – fortíssima influência na formação de pesquisadores dedicados a estudar aquilo que seu xará, Michel Wieviorka, sugeriu ser uma das mais importantes questões teóricas e políticas a desafiar os sociólogos no século XXI: a violência.
Como poucos – e grandes – sociólogos, Michel mobilizou diferentes perspectivas teóricas e variados recursos metodológicos nos trabalhos que desenvolveu. Teoricamente, tomou para si a dificílima tarefa de articular abordagens críticas e compreensivas, buscando integrar, em suas análises, autores como Karl Marx e Max Weber, tal como na sua discussão sobre o conceito de classe social, desenvolvida no mestrado realizado no antigo Iuperj, nos anos 1970, e autores como Michel Foucault e Howard Becker, em suas análises sobre a violência no Rio, tal como na sua tese de doutorado, Malandros, marginais e vagabundos: A acumulação social da violência no Rio de Janeiro, defendida na mesma casa, em 1999, e finalmente publicada em livro em 2022. Metodologicamente, Misse sempre lançou mão de uma gama variada de recursos, qualitativos e quantitativos, presentes de forma articulada, em vários momentos de sua obra. Michel foi um sociólogo raro.
Essas características tornaram-se também algo muito próprio de seu Necvu. Seus alunos exploraram os mais diferentes temas no campo mais geral da violência, da criminalidade e dos conflitos sociais. Ao longo de quase três décadas, o grupo produziu estudos de caráter mais teórico, tanto de linhagem crítica quanto de linhagem compreensiva, pesquisas etnográficas (Michel tem uma lista de brilhantes antropólogos como seus ex-orientandos), pesquisas documentais, pesquisas estatísticas e diversos estudos que frequentemente buscavam integrar diferentes perspectivas teóricas e abordagens metodológicas. Trata-se, certamente, de uma marca que permanecerá ao longo do tempo.
Também foi uma voz importante no debate público. Sua presença na mídia nos alertava, através de uma crítica lúcida, avessa a modismos teóricos e afãs de combate, que o Estado – por meio de mecanismos presentes em instituições como a polícia, a Justiça e a prisão – frequentemente reproduz e amplia a violência que pretende combater. Michel acompanhou a complexificação do processo de acumulação social da violência, a expansão das facções e o desenvolvimento das milícias, bem como seus impactos políticos mais gerais. Denunciou incansavelmente o perigo que representam à democracia brasileira e nos exortou a desatar o nó da acumulação social da violência com inteligência e perspicácia, de modo a interromper o velho ciclo de ações políticas que pretendem apagar o fogo com gasolina.
Agregador, Michel soube como poucos cultivar relações, produzir conexões e articular pessoas e ideias, do Socii (organização criada com outros colegas nos anos 1970) ao Necvu, passando, evidentemente, pelo Maracangalha. Esse meio do caminho não é por acaso. Misse semeou tudo isso em uma existência regada à alegria, à festa, à generosidade, a sorrisos largos e contagiantes que sempre nos convidavam a se achegar e a participar. Tudo isso sem jamais perder o rigor teórico, metodológico e ético. Lições de primeira ordem. Ele nos deixa um importante legado. Sua voz e suas ideias ecoam e continuarão influenciando muitas pessoas, dentro e fora da academia.
Michel Misse deixa três filhos, André, Daniel e Michel Filho, a companheira Joana Vargas, também professora da UFRJ e do PPGSA, e um gigantesco número de alunos e orientandos, que seguem em várias casas pelo Brasil e pelo mundo influenciados por seu pensamento arguto, crítico e cuidadoso, produzindo uma poderosíssima contribuição não apenas a sua área de pesquisa específica, mas às teorias social e sociológica. Nossos sentimentos à família e aos demais amigos.
14 de agosto de 2025.
Alexandre Werneck
Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Cesar Pinheiro Teixeira
Professor do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF)
